Quarta-feira, Setembro 19, 2007
Mudei-me: Egocionário
Por RGM às 06:31
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Quinta-feira, Setembro 13, 2007
"Ohh, can't anybody see
We've got a war to fight
Never found our way
Regardless of what they say
How can it feel, this wrong
From this moment
How can it feel, this wrong
Storm.. in the morning light
I feel
No more can I say
Frozen to myself"
(...)
Roads, Dummy. Portishead.

I never get what I chase
but what chases always gets me.
(of time and feelings)
Por RGM às 23:51
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Domingo, Agosto 26, 2007
talvez
tal vez
zevlat?
vestal?
teslav?
lestav vlates!
é, mas não sei
pode ser...
voltei?
Por RGM às 01:55
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Sexta-feira, Junho 08, 2007
Questões futebolísticas à parte, life goes easy on me...
vou ter um troço se algo não acontecer em breve -.-
"I will
lay me down
in a bunker
underground
I won't let this happen to my children
meet the real world coming out of your shell
With white elephants
sitting ducks
I will
rise up
Little babies' eyes, eyes, eyes, eyes
Little babies' eyes, eyes, eyes, eyes
Little babies' eyes, eyes, eyes, eyes
Little babies' eyes, eyes, eyes, eyes, eyes, eyes"
yeah yeah, white elefants, sitting ducks...
algumas verdades são por demais insuportáveis.
a vida me falha
à cada suspiro ou olhar perdido...
Por RGM às 16:14
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Quinta-feira, Maio 31, 2007
ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
GRÊEEEEEEEEMIOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
TOMA!!!!! Luxemburgo fdp uêheheheheheheheh
Por RGM às 16:23
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Sexta-feira, Maio 04, 2007
you can wait for ages
watch your compost turn to coal
but time is contagious
everybody's getting old
já acordou com a sensação de que algo passou?
eu já, mas dessa vez foi bom
tralala
You can sit on chimneys
And put some fire up your ass
No need to know
What you're doing or waiting for:
But if anyone should ask?
Tell them I've been cooking coconut skins
Por RGM às 08:31
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Terça-feira, Maio 01, 2007
"i pack my suit in a bag
i'm all dressed up for prague
i'm all dressed up with you
all dressed up for him too
prepare myself for a war
before i even open up my door
before i even look out
i'm pissing all of my bullets about
i wrap myself in a bag
i'm all wrapped up in prague
i'm all wrapped up in you
i'm all wrapped up in him too
prepare myself for a war
and i don't know what i'm doing this for
trying to let it all go
but how can i when you still don't know?
i could wait for you
like that hole in your boot waiting to be fixed
i could wait for you
but what good would that do but to leave me pricked?
cheers darlin'
here's to you and your lover
...darling
i got years...
pack my suit in a bag
all dressed up for prague
pack my suit in a bag
all dressed up for..."
Damien Rice - O - Prague
yeah yeah, I'm pissing all of my bullets about
but eventually I'll come back, always do...
Por RGM às 04:21
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Quinta-feira, Abril 05, 2007
A Quadragésima Terceira
O meu nome era Ana, ou Joaquina, ou, como tantas, uma qualquer Maria. Em verdade, nome eu já não tenho mais, nem filhos ou filhas, acaso os tenha tido; mas marido eu sei que tinha, pois desse anel fosco em minha mão torta alguém era senhor. Esse mesmo alguém que vai atender ao telefone logo em breve e talvez bater atrás de si a porta do endereço onde não resido mais, precipitando-se à rua em ignorante desatino, urgência pelo o que só lhe resta esperar.
Hoje eu devia estar apressada, talvez quase atrasada. Tomei um banho rápido e prendi os cabelos que sequer molhei com um grande grampo prateado. Escolhi rapidamente uma saia e uma blusa, peças claras para esse dia que amanhecia quente, um par de sapatos escuros e saltos baixos e apanhei sobre o criado-mudo um pequeno relógio gasto, presente de alguém de que já não me lembro. Fui para a cozinha e guardei aos trancos panelas e pratos que dormiram sobre o escorredor, esquentei água para o café e observei impaciente a lentidão com que essa escorria pelo pó para dentro do bule. Já mordiscava um pão amanhecido com alguma geléia e margarina quando servi a primeira xícara. Talvez tenha acordado alguém com o chiado estridente da chaleira ou o ruído metálico do alumínio das panelas, porém, a pequena mancha escura que observava em minha blusa só não era mais irritante que o esmalte descascado das minhas unhas e talvez não tenha percebido mais nada, tão absorta que estava tentando limpar ambas as coisas enquanto bebia meu café. Acabei por trocar a blusa por uma marrom e deixei as unhas como estavam. Coloquei as contas do dia cinco dentro da bolsa abarrotada e não parei de caminhar até chegar à parada dos ônibus.
Passou a primeiro, depois o segundo, o terceiro ameaçou, mas dobrou uma rua antes, no quarto embarquei. Não era o meu, mas passava perto do meu destino, apenas tinha de atravessar o parque e algumas quadras, nada além de alguns minutos caminhando. Não lembro de pensar nos meus durante a viagem, apenas nos outros. Alguém com as axilas muito suadas logo cedo naquela manhã, outro com o colarinho da camisa puído. Uma criança adormecida no colo de uma senhora tossia vez ou outra; ela não parecia sua mãe, talvez fosse avó. Um jovem casal conversava discretamente, ele em pé e ela sentada. Cada rosto, mão, objeto, parecia ter uma história, todos pareciam tão cientes de suas origens e destinos, tão cientes de suas identidades. Desci em uma parada em meio à multidão habitual, desviando de tantas pessoas que deixei de pensar nelas e lembrei-me do meu destino. Tive medo de não me desvencilhar daquele emaranhado de caminhos e esbarrei em tantos quanto foi preciso para sair. Atravessei o parque ainda pensando no trabalho, ou pelo menos naquilo que iria fazer. Acho que sei para onde ia, mas já não lembro ao certo para onde ou o que fazia. Talvez fosse secretária, mas não usava uniforme, ou apenas atendente em algum balcão, talvez uma faxina em algum lugar... Só sei que pensava muito, pois não observei mais nada no meu caminho. Não vi se havia algum mendigo nos bancos, não vi se havia pássaros, gatos; não vi se cruzei alguma poça de água. Avistei o carro que acelerava após o semáforo e apressei o passo para atravessar a avenida. Apoiei-me na mureta de proteção do corredor dos ônibus, pois do outro lado os carros já cruzavam antes que eu atravessasse, mas nem bem olhei para o lado e já ouvi aquela parede de metal e plástico gritando o ruído que me atropelou primeiro.
Ali perdi primeiro os sentidos, depois minha bolsa, meu telefone. Minha dentadura foi arrancada de minha boca com o impacto, bem como a minha voz e a minha vida. Minha mão ficou dobrada e marcada pelos pneus do carro que não conseguiu parar. Minha identidade desapareceu aos poucos, a cada olhar, a cada transeunte que passou, a cada curioso que parou para saber que número ali aparecia. Alguém tão apressado como eu respondeu desinteressado à pergunta de um outro qualquer: ¿Ah, foi só uma mulher que foi atropelada por um ônibus. É a segunda que eu vejo esse ano.¿ Agora, essa sou eu, a segunda de alguém com pressa, a primeira de alguém horrorizado, a oitava de um enfermeiro cansado. A quadragésima terceira fatalidade de um ano que nem bem começou, mas que já dá por acabada a minha vida e o meu caminho.
Por RGM às 07:45
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Quinta-feira, Março 22, 2007
Ahhhhhhhhhhhhh!!!!!!! e quer saber? Ahhhhhhhhhhhhhhh e ahhhhhhhhhhh!!!
às vezes dá vontade de gritar, não dá?
não, mais nada, só gritar mesmo.
Por RGM às 00:31
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Terça-feira, Março 13, 2007
"e não me falta ao passo, coração"
vou criar asas e voar do décimo
quarto dia sem pensar, passo
ao largo, sem te olhar, só passar
pois só passar é passo raro
pássaros, décimos, quartos
dias longes de chegar
Por RGM às 11:09
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Quinta-feira, Março 08, 2007
Podem me linchar, xingar, qualquer coisa... mas o dia das mulheres, ainda q marque uma data trágica, é o dia mais machista q conheço.
E eu tou cheio dessa hipocrisia!
Por RGM às 22:22
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Sexta-feira, Março 02, 2007
"Nutshell" - Jar of Flies - Alice In Chains
We chase misprinted lies
we face the path of time
and yet i fight
and yet i fight
this battle all alone
no one to cry to
no place to call home
My gift of self is raped
my privacy is raked
and yet i find
and yet i find
repeating in my head
if i can't be my own
i'd feel better dead
Acho que já postei isso, mas pouco importa; pouco muda de verdade, pouco me importa da realidade. Alguém disse que somos a medida dos nossos sonhos; sonhos... Ou eu não os tenho, ou eles são a medida exata do que vejo do mundo. Uma sobreposição caótica de coisas e pessoas; corpos amontoados; fluxo do nada ao nada.
Sentido? Essa coisa de sentido não existe.
E não venha me prender que eu não sou bicicleta pra ficar amarrado.
Por RGM às 13:42
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Segunda-feira, Fevereiro 19, 2007
"Friend of The Night" parte 2
Eu sou amigo da noite, não dos bêbados
Sou amigo do escuro, não dos holofotes
Sou amigo da música, não do barulho
Sou amigo da loucura, não da patifaria
Eu sou amigo das festas, mas com certeza
Não do carnaval.
Por RGM às 13:43
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Terça-feira, Janeiro 30, 2007
"Friend of The Night"
... of many nights
... of many friends
eu vou colar um cigarro nos lábios e esperar o dia amanhecer
vou sentar e ouvir os guinchos e os alarmes, os gritos
todos os gritos
vou esperar a noite parar de sofrer do hálito bêbado dos bueiros
só para ter certeza
ter certeza de que o mundo não girou errado
e que as coisas continuam onde sempre tiveram que estar
aqui
fui só eu que não vi?
Por RGM às 21:18
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Quarta-feira, Janeiro 03, 2007
Outsiders - You Could Have It So Much Better - Franz Ferdinand
We've seen some change
But we're still outsiders
If everybody's here
Then hell knows
We ride alone
I've seen some years
But you're still my Caesar
With everything I feel
I feel you've already been here
The only difference is all I see is now all that I've seen
It's bright on the outside
The bright love the dark side
I know it's obvious
But sometimes
You just have to say it
So you don't feel so weak
About being such a freak
Or alone
In seventeen years
Will you still be Camille
Lee Miller, Gala or whatever
You know what I mean, yeah
Love'll die
Lovers fade
But you still remain there
Squeezing in your fingers
What it means for me to be
The only difference is what might be is now what might have been
When you saw me sleeping
You thought I was dreaming of you
No, I didn't tell you
That the only dream
Is Valium for me
The only difference is that what might be is now.
Trilha sonora dos andarilhos noturnos. "When you saw me sleeping, you thought I was dreaming of you. No, I didn't tell you that the only dream is Valium for me."
Ingênuas são as crianças, todo o resto é estupidez mesmo.
Por RGM às 23:23
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Terça-feira, Dezembro 26, 2006
Para os autos:
o acaso não é orquestrado pelo destino, ele rege o caos.
Por RGM às 23:51
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Domingo, Dezembro 10, 2006
Onde termina o sorriso?
O riso? Rarefeito em rosto feio...
Frio feitio do riso desfeito.
Retumbando profundo, grave som
Que é só imagem, mosaico
Daquilo que ria, não ri mais.
Verso após verso, um suspiro
Sem ar, sem rimas, não faz
Um poema a rir-se de amar.
Por RGM às 12:13
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Sábado, Dezembro 02, 2006
"Give some meanings to the means"
Tanto eu li para acabar entendendo que o significado das coisas está nelas mesmas, somente nelas, jamais além. E tanto eu entendi sem conseguir aceitar isso. Talvez, se tivesse aceitado, teria sido feliz muitas vezes, não essas poucas quando fui pego de surpresa.
A efemeridade não permite planos e não tolera perguntas. Se a gente pára, muda, se a gente não pára, também muda. E se me perguntarem o que muda, já não existe mais resposta, por que daquilo que falava já não há mais e do que responde a pergunta eu não falei ainda.
Eu sei que esse discurso heraclitiano não me leva a lugar nenhum, no seu estrito sentido relativista, e que a reflexão última é que logo nem posso falar de coisa alguma, mas no que sei de agora, do que é agora, é isso... Constante mutabilidade fez dos meus sentimentos uma nuvem de pó dançando no raio de luz que passou pela janela. Talvez sejam sempre os mesmos, mas o que vejo nunca é. Muitas coisas no canto escuro da sala não me fazem feliz, mas quando passam pelo facho pelo menos um sorriso terno me arrancam. Se ao menos não procurasse tanto pelos cantos, se ao menos aceitasse as coisas pelo o que elas são...
Arrumo algo não por que queira as coisas consertadas ou organizadas, arrumo por que gosto de arrumar. Mas o regozijo, a mínima satisfação possível, só vem quando está pronto e daí já é tarde: eu terminei.
Por RGM às 02:31
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Quarta-feira, Setembro 27, 2006
escrevi um conto...
Na Contramão
Porque não fazia sentido, porque não havia razão, chegara Jorge à placa; a única coisa estática daquela esquina. As árvores, trêmulas; os pássaros, esvoaçantes; os carros, borrados; as pessoas, desfiguradas; Jorge, cambaleante. A pequena amiga, uma vaga imagem de outra pessoa, escorregara entre bebida e luzes, pelas frestas da conversa obrigatória. Não, ela disse, desaparecendo na multidão, e nada mais ele lembrava que ela tivesse dito. Tentou pensar no que ele dissera, mas também já não importava tanto assim, melhor foi descobrir no bolso os cigarros que tanto procurou dentro do táxi. Acendeu e rodopiou, agarrado ao "PARE", vermelho e imperativo; numa mão o cigarro, na outra o eixo do mundo. "Que me importam os pólos, se aqui eu giro em volta do 'PARE'?" Blasfemou Jorge em sua embriaguez, enquanto que de um passo errado quase jogou seu novo mundo contra um cometa que não parou. A buzina se espichou longa e histérica do carro que se distanciava, como uma fina linha de náilon presa aos olhares da rua.
A passos firmes, tentou demonstrar controle ao entrar num bar; olhou brevemente o homem do caixa enquanto abria o freezer e uma lata de cerveja, mas enfiou mais uma em cada bolso do casaco, esbarrou na fila do banheiro e derrubou a carteira no chão. Seria belo o tilintar das moedas, não fosse o murmúrio bêbado que emanava das mesas e a risada desafinada de uma coadjuvante qualquer; tentou olhá-la com desprezo, mas já não distinguia as próprias expressões. Com mais um maço de cigarros no bolso, agradeceu àquele manequim de bar que aperta as teclas da caixa e ainda refletiu ao passar pelas mesas: "Todos que eu não conheço e sempre deixo para nunca conhecer; todos que eu vejo e que nunca mais vou ver". As calçadas daquela quadra continuavam cheias de jovens; olhou trêmulamente alguns grupos, mas não reconheceu ninguém. "O Fernando ficou no outro bar com a Marcela, mas lá eu não volto. Mas a chave... Posso deixar a janela aberta pra ele; um jeito ele dá de voltar..." Sentado em um banco esvaziou o primeiro bolso com um cigarro grudado nos lábios. Como é desagradável se ocupar em meio a estranhos; olhar esses corpos borrados na linha de suas cinturas enquanto eles deslizam tão perto. A conversa obrigatória com Renata agora não seria ruim, longe do barulho e luzes daquele balcão. Talvez até uma verdade surgisse, algo que surpreendesse o mundo da placa de pare, algo que abafasse o murmúrio das mesas, que encarasse com olhos francos as cinturas estranhas e viesse enquanto elas vão, elas que sempre vão. Mas não havia Renata, nem outra pequena amiga; não havia amigos naquela multidão e todos que sabia vivos estavam em seus devidos lugares, tendo com outras pessoas. As relações alheias lhe pareciam tão autênticas, agora que estava sozinho, que chegou a pensar jamais poder ser sincero como eles; sincero e simples, acrescentou, puxando o novo maço de cigarros e a última cerveja. Longe a algum tempo das bebidas destiladas, começou a recobrar a coordenação; levantou e seguiu pela rua, desviando de menos corpos que antes, desviando da placa de pare, dos carros, dos cordões com que a vida teceu as pessoas em grupos. Dobrou em uma rua, depois em outra, e logo não desviava de mais nada. Atropelava o foco das lâmpadas dos postes assoviando uma música e depois outra àquelas varandas vazias e janelas adormecidas. Só lhes competem os sonhos durante a madrugada, o sono justo daqueles que não pensam sobre a sinceridade, daqueles que não pensam em encontrar mais do que já tem.
Um carro ou outro às vezes lhe fisgava o olhar, cruzando esquinas e desaparecendo naquele deserto noturno. Entrou em uma praça mal iluminada onde a grama crescia sem cuidado e os brinquedos estavam abandonados, à exceção de um balanço estreito de madeira onde sentou. De um pequeno bolso puxou um papel de enrolar cigarros; prendendo-o entre os lábios, esvaziou na palma da mão o conteúdo de um saquinho plástico. Quase apenas galhos e sementes, pensou Jorge decepcionado. Malditos aqueles que sempre lucram com a necessidade alheia, aqueles que não se importam em enganar o mundo contanto lhes sobre o que apazigüe a consciência. Mas tudo bem, deve bastar para acalmar os nervos. Uma vez enrolado, acendeu a ponta maior do baseado, observando desconfiado as esquinas daquela praça onde os postes lançavam luz sobre a calçada. Nenhuma viatura policial andava por aquelas quadras e tudo continuava vazio àquela hora. Fumou quase todo o baseado e depois o guardou dentro do maço de cigarros, de onde tirou um para acender no mesmo instante. As estrelas iam e vinham, deixando rastros fracos no escuro junto à luz dos postes enquanto balançava o corpo como uma criança. Cada vez mais alto, recolhendo as pernas para não tocar o chão, esticando-as para dar impulso; soltou as mãos das correntes, esticando os braços para tocar a copa das árvores, quando então lançou o corpo do assento e aterrissou perto de um banco. Muita sorte tem os bêbados e as criancinhas, sempre caem de bunda e nunca de cabeça. Limpando a calça, levantou-se cuidadoso, mas sem nenhum arranhão; endireitou-se e saiu caminhando normalmente da praça.
Voltou a assoviar a algumas quadras de lá, caminhando a passos largos que por vezes viravam saltos. Apoiou-se em uma placa para um dos saltos, mas essa cedeu, jogando-o ao chão. Nem tanta sorte assim têm os bêbados. A placa apontava uma seta aos céus, circulada em vermelho e cruzada pelo mesmo traço. O poste de madeira não era cimentado ao chão, apenas enterrado, e por isso cedera um pouco naquele solo arenoso, deixando a seta meio inclinada. Proibida a ascensão aos céus inclinada, pensou, sentado após mais um tombo. Vai ver Deus só lida com ângulos retos, blasfemou Jorge mais uma vez. Recomposto, começou a mexer com a placa, empurrava-a pra lá e pra cá, soltando-a de dentro do buraco que se alargava cada vez mais. De um súbito, colocou toda a força em um abraço e ergueu-a do buraco. O poste tinha quase três metros e pesava muito. Acocorado sobre a placa, tentou arrancá-la, mas os pregos a prendiam firmemente ao poste. Tentou afrouxá-los soltando o poste na sarjeta e a placa sobre o cordão, porém nada funcionava. Polícia ele ainda não tinha visto desde que saíra do centro da cidade, mas sabia que naquela avenida não tardaria até alguém passar e o ver em pleno ato de vandalismo e depredação. Arrastou o poste para perto de um muro em meio a alguns arbustos e saiu para remexer algumas sacolas de lixo. De volta com um pedaço de papelão em mãos, ajeitou-o sobre o ombro onde apoiou o poste. Apressadamente, deixou a avenida e dobrou em algumas ruas menores e mal iluminadas, caminhando bem junto aos muros das casas, pronto a abandonar o prêmio ao menor sinal de perigo. Depois de poucas quadras abandonou o papelão que não parava sobre o ombro; amarrou o casaco na cintura e apoiou o poste sobre as costas inclinadas. A madeira áspera roçava-lhe a pele sobre a camiseta, mas o corpo ainda adormecido pelo álcool se prestava muito bem ao castigo. Nenhum pensamento lhe cruzava a mente, ninguém lhe cruzava o caminho, mas o medo do flagrante o fazia abandonar o poste a cada esquina para espreitar o movimento. Algumas vezes continuou caminhando normalmente, noutras acendeu um cigarro, até ter certeza que ninguém viria pelas ruas que cruzava e por aquela que seguia. Já perto de casa, Jorge, mais tranqüilo, chegou a desejar que uma janela ou porta se abrisse e o vissem assim, meio vândalo, meio Cristo, carregando as ordens do mundo nas costas para guardar em casa.
Parado à porta, apoiou o poste no muro enquanto entrava e abria a janela do quarto no térreo. Todos dormiam e sabiam bem os barulhos de que um bêbado é capaz. Ninguém se alarmou, ao que sabia, ninguém sequer acordou. Pulou a janela para a rua e apoiou o poste na soleira, entrou novamente e puxou-o para dentro do quarto, acomodando-o, todo sujo e cheio de terra, suspenso sobre os pés e cabeceira da cama. A veneziana entreaberta para aqueles que ainda não tinham chegado; o cigarro derradeiro, deitado de costas com o novo mundo girando dentro do quarto, em volta da cama, em volta do poste e das ordens que o homem, algumas vezes, não pode cumprir. Adormeceu Jorge com o cigarro entre os dedos, meio despido, meio imbuído das culpas da vida que, sem saber, seguia na contramão.
Por RGM às 19:36
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Terça-feira, Agosto 29, 2006
Pra cima e pra baixo
Para os lados
Pra frente e pra trás
Parados no meio
Sempre parados
"You never talk
We never smile
I scream you're nothing
I don't need you anymore
You're nothing
It fades and spins"
Como em um grito de dor
Eu giro e desapareço
Permanece o meu eixo
A angústia do vento
Preso em um cabo de aço.
Para as coisas que vêm e vão simplesmente calo. Se elas não fossem tão rápidas, talvez me sobrasse uma frase ou duas, mas ultimamente nem isso, apenas a necessidade delas... Abrir uma agenda e catar um poema velho me parece extremamente apropriado.
Por RGM às 09:57
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Sábado, Agosto 26, 2006
Sim, não somos nada além de pó. Simplesmente, não somos. E como pó que somos, misturamo-nos a cada sopro de vento. Jogados às alturas de vôos alados, misturamos-nos em ascenção e queda, em lugares que jamais pensamos possuir. E eu, como pó que sou, voarei um dia sem a mente que agora uni o pó. Voarei em lugares diferentes e contemplarei as partes que agora chamo de eu. Voarei para, com sorte, reencontrar todos que anseio misturar-me e poder levá-los comigo, sempre.
Por RGM às 19:03
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Sábado, Agosto 19, 2006
Eu vi uma mosca parada no vidro. Eu vi uma moça parada na rua. Eu vi um andarilho cagando no meio da rua, no meio do dia, atrapalhando a terça e o passeio público. Eu vi um copo vazio varando o escuro. Eu vi uma escada em chamas e um rosto na janela quebrada. Eu vi um casal aos amassos e uma mão separando corpos. Eu vi um raio de luz, mas eu não vi o poste. Eu vi a morte, mas, ainda assim, eu não vi o poste. Eu vi Éloge de L'amour e Alphaville. Eu vi o cigarro apagar sozinho e vi tua mão apagá-lo na água. Eu vi o assalto e vi as pessoas e vi a polícia e vi a perseguição e vi a fuga, mas não vi a carreira que me atropelou. Eu vi o que era sonho e vi o azar chegando. Eu vi que podia acordar, mas acabei não escapando, porque quando voltei ela ainda estava lá. Ainda estava a pobre, seca e grudada, mosca parada no vidro.
Por RGM às 13:47
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Sábado, Agosto 05, 2006
Oh yeah baby, hj eu fodi de novo. I'm a fuckup. Bati o carro em um canteiro enquanto pensava merda bêbado, tudo pq tocou o som q não podia tocar na rádio... Claro, a culpa é do radialista... Enquanto eu penso em uma explicação razoável pra não dizer que pirei entre uma reflexão de morte e vida. A minha vida e a morte dos que morrem enquanto a gente sobrevive... foda-se...
I´m a fuckup...
Por RGM às 05:12
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Segunda-feira, Julho 17, 2006
Aeroportos me provocam a mais estranha das saudades
Nostalgia dos lugares que não alcancei
Isso era pra ser um poema
Mas não decolou
E isso era pra ser uma piada, mas virou um trocadilho de "quinta".
Melhor fugir antes que piore...
Por RGM às 02:04
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Domingo, Julho 16, 2006
Desabafo:
O mundo é tão cheio de merda que pra dar a descarga ia faltar água nesse planeta.
Por RGM às 00:29
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Quinta-feira, Julho 13, 2006
Continuando a tradição de citações musicais...
"Now that I know that I'm breaking to pieces
I'll pull out my heart
And I'll feed it to anyone
Crying for sympathy
Crocodiles cry for the love of the crowd
And the three cheers from everyone
Dropping through sky
Through the glass of the roof
Through the roof of your mouth
Through the mouth of your eye
Through the eye of the needle
It's easier for me to get closer to heaven
Than ever feel whole again"
Disintegration - Disintegration - The Cure
Uma hora eu desbloqueio, mas até lá, canto...
Por RGM às 21:45
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Quarta-feira, Julho 12, 2006
"I want to tell you a story
About a little man
If I can.
A gnome named Grimble Grumble.
And little gnomes stay in their homes.
Eating, sleeping, drinking their wine."
The Gnome - The Piper at the Gates of Dawn - Pink Floyd
Pois é... No próximo porre que eu tomar vai ter um diamante a mais brilhando no lado escuro da lua.
Shine on, shine on you crazy diamond!
(Syd Barret 06/01/46 - 07/07/06)
Por RGM às 20:19
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Sábado, Julho 08, 2006
2+2=5
É por que dois mais dois fazem cinco
Que eu já não sei o que sinto
Não faz
Não sinto
Nem pode ou comove
É por que três mais três fazem sete
Que eu não sei quando fere
Não me faz
Não me fere
Nem mais ameaça eu pressinto
E é de quatro e quatro, aquele nove
Que eu grito: agora chove!
Mas não me faz
Mas nunca chove
E quando conto, nunca confere.
Por RGM às 19:01
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Terça-feira, Junho 27, 2006
Tracy - Young Team - Mogwai
"we gotta... we gotta do something about this"
e uma longa conversa telefônica
e um longo dia de longo entardecer
e uma longa espera de longos olhares
e um longo pesar de tão longo querer
é chato ouvir o que quase ninguém conhece porque quase ninguém sabe o que se passa
e essa sensação, é, essa mesma, aumenta das pequenas coisas...
dos pequenos olhares de grande querer
das grandes esperas
por tão pouco a viver.
Por RGM às 19:50
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Quarta-feira, Junho 21, 2006
Sei que tu odeias cigarros, mas na tua falta, eles foram meus melhores companheiros. E o que eu não disse é que acendi cada um deles com uma lembrança que se apagou antes dele mesmo. E foi com eles que
Eu aqueci o inverno
E eu iluminei a noite.
Mas foi delas que eu
Fiz fumaça do que
Não era pra ser terra
Mas que por não ser leve
Ainda virou cinza
Jogada da janela
Caída dos andares
Dos meus espaços vastos.
Por RGM às 18:40
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Segunda-feira, Junho 19, 2006
Fala co'a mão, porque eu
Eu não posso mais te ouvir
Fala dos dedos
Dos cabelos
Fala dos dias, mas não
Fala não dos teus medos.
Fala o que te há de sorrir
E que nunca foi meu
Fala do que foi cedo
Do que não aconteceu.
Me leva a um lugar legal
Entre uma mímica e outra
Me leva embora
E me conta uma história
Explode o carro
Comigo dentro.
Escolhe uma música
De tambor e trombeta
E explode o rádio
A humanidade
Explode a casa
A quadra
O centro.
Me passa a faca
A água
E o meio
Que eu bebo
Eu corto
E eu parto
Ao meio
O meu pedaço mais sedento.
Por RGM às 14:01
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Domingo, Junho 11, 2006
Por RGM às 18:16
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Sábado, Junho 10, 2006
12:30
Fones de ouvido
Tiro os óculos, faço uma pose, olho ao redor e faço um pedido: buffet com filé, uma taça de vinho e uma água sem gás. Tiro o fone de um ouvido; ainda não fiquei surdo, apenas distante. Pago e me sirvo e me sento; dobro o guardanapo, abro a garrafa, bebo um gole de vinho, faço uma pose e olho ao redor. A comida não é ruim e também não é boa. Uma garfada e uma música, um toque de papel aos lábios e um pensamento jogado pela janela.
Morra. Die, bitch. "Did you ever think I get lonely ? Did you ever think that I needed love?" "You'll never know how hard I tried to find my space and satisfy you too."
Sim, eu saí. Almocei, comprei livros, caguei em um banheiro limpo e tomei um expresso duplo fumando dentro de um shopping. Comprei presente de aniversário e mais coisas pra mim mesmo. Decorei mentalmente uma sala inteira e combinei com um futuro nefasto um aparelho de fondue. Vou dormir em lençóis com pictogramas que espero nunca entender, ler livros em inglês e francês por não ter nada melhor pra fazer. Acordarei às duas da manhã com um cigarro na boca e sem pêlos no corpo, nu sobre a bebida e as cinzas e os cacos e os restos.
Abri a janela de uma noite gelada de junho e gritei pra que gritassem comigo. Não adiantou, apenas me olharam. Desisti e fiz um sanduíche sem me dar o trabalho de passar margarina; abri um refri pra não fazer um suco e comi na cozinha pra não arrumar a sala. Dormi no sofá pra não tirar as roupas de cima da cama e liguei o som pra não suportar o silêncio.
Acordei com um cigarro na boca e joguei na privada. Tomei um banho e joguei mais um sonho na privada. Vesti minhas roupas com o esmero habitual, perfumei o mesmo pescoço degolado e cerrei portas pra ninguém respirar. Cantei no ônibus e cantei tomando café. Cantei em silêncio quando te encontrei e quando disse tchau. Cantei com as árvores enquanto todos falavam e calei com os pássaros quando as sombras passaram.
"What's gone wrong, I can't see straight. Been too long, so full of hate.""What the hell, gotta rest, aching pain in my chest. Lucky me, now I'm set."
12:30
Fones de ouvido
Ponho os óculos, faço uma pose, olho ao redor e faço um pedido: me leva pra casa. Aumento o volume pra não ouvir mais nada. Pago o táxi, pego a chave, abro a porta e fecho as saídas. Não, hoje eu não como. Almoços são pras pessoas bem resolvidas com a sua solidão. Pessoas que não se importam em gastar mais de 20 paus comendo sozinhas enquanto atestam a conformidade dos pequenos prazeres da vida com o vazio aterrador dos grandes desprazeres da vida. Comam, comam calados enquanto as sombras vos imitam. A minha eu já matei.
"I'm sick of dour faces
Staring at me from the tv
Tower, I want roses in
My garden bower; dig?
Royal babies, rubies
Must now replace aborted
Strangers in the mud
These mutants, blood-meal
For the plant that's plowed.
They are waiting to take us into
The severed garden
Do you know how pale and wanton thrillful
Comes death on a strange hour
Unannounced, unplanned for
Like a scaring over-friendly guest you've
Brought to bed
Death makes angels of us all
And gives us wings
Where we had shoulders
Smooth as raven's
Claws"
Por RGM às 17:04
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Domingo, Maio 28, 2006
Agora eu vou te beijar como se não tivesse boca
Para poder te amar como se não tivesse corpo
Pois que já durmo como se não tivesse sono
E já acordo como não houvesse dia
Agora, já não é mais nada que eu tivesse visto
Pois nunca houve quem os olhos tivesse claros
Para alvorecer o que me desperta tarde
E escurece como não houvesse luz
Se eu não tivesse um sonho que acordasse os mortos
Não tivesse um sonho que gerasse um quadro
Mas sempre acordo como um afogado
Respirando água, vomitando ar.
"Bem, eu sempre quis comer vidro com você outra vez"
Sempre preferi a realidade falsa e indecisa
Das aranhas penduradas em teias de gelo
Ao mórbido visco pegajoso dos vermes
Bom dia, madrugada, já não te pertenço mais
Teus banhos sujos e esquinas mortas já se foram
Teus becos afiados despertaram claros
Bom dia, dia noite, minha insone noite
Se foi o sonho, o amor, torpe amor se foi
Se foi morte ou vida, olhos, claros olhos
Foram somente os meus, meus densos sonhos
Densos dias, noites dias, foram-se...
Por RGM às 17:35
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Sábado, Maio 27, 2006
Quase nada de muitas coisas, da maioria, nada mesmo. De umas quantas, demais, do resto, esqueci quando acordei.
Por RGM às 16:33
Pois é... quer saber? Chutei o balde... Minha troca de curso não vai rolar, vou esperar o vestibular. Meus remédios não vão rolar, vou esperar o dia começar. Meu último poema não vai rolar, vou esperar a cabeça parar, parar de girar entre pessoas, livros, sonhos alucinados e revistas de decoração. Meu ap novo vai rolar, mas pra isso, que esforço... que concentração... se eu morresse amanhã, ficava pronto. Meu sarcasmo e ironia, bem, esses sempre rolaram, mesmo de bom humor, naqueles dias ensolarados e quentes, brilhantes dias apaixonados - vida: de Good Day, Sunshine à Six O'clock In The Christmas Morning. Na verdade, Balada em G Menor op. 23, Chopin, é o que há (a música do filme O Pianista). Maravilhosa, cheia, dolorosamente bela e ao mesmo tempo puramente renascida dos seus próprios movimentos de destruição. Vai ver a beleza da vida sempre foi essa, algo que transita entre Survival, do Yes, e Space Die Vest, do Dream Theater. O chato é que morrer é fácil, sempre tem alguém disposto a nos emprestar a arma, difícil é nascer de novo. Por enquanto: livros, filmes chatos, horas insones jogando no computador - é isso mesmo, nerd. Por enquanto: paroxetina, clonazepam, topiramato, maconha e vinho - é isso mesmo, torpor químico. Não, eu não me orgulho disso - ou pelo menos tento me convencer de que não - mas me orgulho sim é de sobreviver. Aliás, é tudo muito mais uma questão de sorte do que de instinto: se eu jogasse na sena às 4 da manhã de um sábado, poderia morrer bebendo em Las Vegas sem o wisky acabar. Mas eu não jogo, já seria demais pra minha cabeça... Então, se hoje acordo bem, amanhã talvez não acorde antes das 4 da tarde. Se hoje durmo às duas, talvez amanhã simplesmente não durma. E não, pros diabos com os discursos de auto-ajuda, não é uma questão de vontade. Pros diabos com os meus discursos de auto-piedade, não é uma questão de atenção egocêntrica. E pros diabos com o mundo inteiro, chutei o balde mesmo, por que não é uma questão de saber viver, é uma questão de sobreviver com as imperfeições que carregamos.
Por RGM às 16:21
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Sábado, Abril 22, 2006
Where I End and You Begin - Hail To The Thief - Radiohead
there's a gap in between
there's a gap where we meet
where i end and you begin
and i'm sorry for us
the dinosaurs roam the earth
the sky turns green
where i end and you begin
i am up in the clouds
i am up in the clouds
and i can't and i can't come down
i can watch but not take part
where i end and where you start
where you, you left me alone
you left me alone.
X' will mark the place
like parting the waves
like a house falling in the sea.
i will eat you all alive
i will eat you all alive
i will eat you all alive
i will eat you all alive
there'll be no more lies
there'll be no more lies
there'll be no more lies
there'll be no more lies
Por RGM às 16:55
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Segunda-feira, Abril 17, 2006
É dessas bocas secas e rasgadas
Que em mim nunca estiveram
O desdém menor, desconhecido
Mas é das vossas, os dentes atapetados
As malditas cortinas ondulantes
O desdém maior, o que não é dito.
Eu quero é os rasgos e cortes na alma
Os desvalidos providos de palavras
De torpes frases pouco articuladas
Quero os abraços desesperados e sós
Do mudo gozo despersonificado
Aquilo que não conforta mas se basta.
Eu quero é querer e nunca me saciar.
Por RGM às 19:36
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Domingo, Abril 16, 2006
Cat Power - Moon Pix - Say
"Learn to say the same thing
Let us hold fast to sayin the same thing
I hope all is well with you
I wish the best for you
When no one is around love will always love you
Learn to say the same thing
What defeats people is a double confession
One time they will confess one thing
And the next they will confess something else
Talk to them they will say
Learn to say the same thing
Let us hold fast to saying the same thing
Never give up no, never give up
If you're looking for something easy
You might as well give it up
Never give up no, never give up
If you're looking for something easy
You might as well give it up
One time they will confess one thing
And the next they will confess the next
Talk to them they will say
Learn to say the same thing
Let us hold fast to saying the same thing."
'Cause saying the same thing is not easy at all, and by looking for easy things to say I ended up with my mouth shut.
And I'll keep it that way.
Por RGM às 18:41
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Sábado, Abril 01, 2006
Great expectations, são como a neve, lindas, mas nunca duram e enlameiam todo o gramado.
Por RGM às 23:06
Great Expectations - Cat Power
I am like powder, I am like relaxation
I am the snow, I am the snow, I am the snow
I live in a desert
And I let the wind make love to me
I dig in this ocean and I try to fill it with gold
Fill it to the top, fill it to the top, fill it to the top
Do you look for hope in other people's eyes
Well that may be your worst redemption
Do you feed and clothe yourself
Well that may be your best defense
I am from the moon, I am from the moon, I am from the moon,
So they say, so they say, so they say
Facing, confronting, branding each other
We were made through one another
Great expectations, great expectations, great expectations
So they say, so they say, so they say
I am the snow, I am the snow, I am the snow
Por RGM às 23:04
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Quinta-feira, Março 30, 2006
Ali, ali e ali
Há vida, mas transborda
Somente aqui, a gota
O montículo excedente
O que ainda não pingou
E agora ultrapassa os limites da própria vida
Pinga
Because "this drop falling has nothing to do with losing my youth. This drop falling is time tapering to a point."
Tempo que se acumula, a própria vida contida em uma gota, uma gota que cresce, corre em um arrepio e pinga para não voltar mais.
Por RGM às 15:17
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Sexta-feira, Março 24, 2006
L'enfer, c'est les autres. C'est ça.
Et moi? J'ai eu assez de cette vie.
L'enfer qui les prenne.
Por RGM às 22:25
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Quinta-feira, Março 16, 2006
"I hear something stamping," said Louis. "A great beast's foot is chained. It stamps, and stamps, and stamps."
"This drop falling has nothing to do with losing my youth. This drop falling is time tapering to a point. Time, which is a sunny pasture covered with a dancing light, time, which is widespread as a field at midday, becomes pendent. Time tapers to a point. As a drop falls from a glass heavy with some sediment, time falls. These are the true cycles, these are the true events. Then as if all the luminosity of the atmosphere were withdrawn I see to the bare bottom."
As Ondas, Viginia Woolf.
Hoje eu vou pra praia, transbordar no mar o que já não contenho mais em mim mesmo. 'Cause the beast's stamping, it stamps, and stamps, and stamps.
Por RGM às 13:24
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Terça-feira, Março 14, 2006
Apartamento de cidade grande, quase sempre pequeno, quase sempre vazio. Paredes brancas que quase nunca são brancas, objetos coloridos que quase nunca têm cor, luz que tampouco esquenta os mortos da sala de janelas que tampouco sorriem aos mortos da rua.
Eis o dia em que as paredes colapsam, os objetos sucumbem e os mortos todos finalmente morrem; um prédio desaba e depois dele outro e mais outro, e cada um deles. Eis todas as cores humanas, eis o cinza da cidade, eis a vala comum. Jaz o homem sepulto em aço, concreto e vidro, pois que não me dêem cova e lápide, mas um arranha-céu mais alto que deus.
Por RGM às 17:07
A gente coloca a cama na sala e um armário na sala. Aluga um filme e depois chama uma pizza. Manda trocar a instalação elétrica inteira e compra um quarto novo. Coloca uma patente na cozinha e um microondas no banheiro; troca as chaves da porta e instala internet, a mais rápida possível, pra nunca ter que esperar. A gente contrata uma empregada pra casa e um terapeuta pra cada amante novo. Compra dois carros, pra nunca precisar de carona. Arranja empregos importates pra nunca poder almoçar juntos e cursos de aperfeiçoamento pra nunca poder dormir cedo. Pede tele-entrega de soníferos pra nunca acordar tarde e forja receitas de estimulantes pra nunca dormir no volante. A gente compra uma casa na praia pra nunca descansar juntos e outra tv com dois pontos de net, afinal, os programas não são os mesmos. A gente contrata então dois advogados ladrões e concorrentes, porque nossos interesses não são os mesmos; contrata dois detetives, porque nossos amantes nunca são os mesmos; contrata psiquiatras diferentes, porque a gente acha que nós já não somos os mesmos. E se eles forem bons, o que é o mais difícil, a gente percebe que somos praticamente iguais ao que éramos anos atrás; percebe que os problemas eram praticamente os mesmos, os teus e os meus, antes e depois; e percebe, afinal, por que quase fomos felizes, sem nunca verdadeiramente sermos, bem a tempo de apertarmos as mãos e morrermos em paz.
Mas não, eu não acredito que todas as pessoas aprendem com seus erros; não acredito que as coisas nelas mesmas são relativas; não acredito em outras vidas e não acredito em dois psiquiatras bons tratando ao mesmo tempo o mesmo casal. E se me perguntas do amor, respondo que acredito, acredito tanto que cheguei a vê-lo morrendo nos braços de uma prostituta aidética na noite passada, envenenado até a morte pela indiferença que a nossa falsa sensação de liberdade alimenta.
Por RGM às 17:02
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Domingo, Março 05, 2006
Os cílios do sol ofuscaram a tarde; calaram-se aqueles que como eu olharam o estranho caminho dourado de pensamentos e fluídos. Caminhei até onde devia, vislumbrei o que jamais entendi e, sem o fazer, dei as costas para finalmente ter a noite nos meus olhos. Agora durmo e não sei mais quando volto.
Por RGM às 19:42
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Quinta-feira, Março 02, 2006
Passa uma garrafa
Um envelope de cigarros
Passa um plástico
Um sapato e uma sandália
Passam os mortos
E os restos da cidade
Passa um peixe
Respirando à flor da pele
E passa outro
Que não resistiu.
Vai passar um circo
A passeata e a procissão
Vai passar o dilúvio
As mágoas e uma lágrima
Vai passar o desejo
Mas a saudade, não vai não.
Vai continuar vazio
Aquele parque de diversões
E os bancos da praça
O lago da saudade, margem, solidão.
Vai continuar vazia essa paisagem
Enquanto a cidade passa
Golfando o ar no espelho d'água
Respirando os sonhos que não há mais.
Vai continuar vazia
A vista que tenho da vida.
Por RGM às 20:22
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Segunda-feira, Fevereiro 27, 2006
O silêncio é cheio de dúvidas
Mas cada uma delas grita
Como meninas histéricas que são.
Por RGM às 19:05
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Sábado, Fevereiro 25, 2006
Dos concretistas
(e dos arquitetos do amor)
Eu não gosto da forma
Como pensam alguns
Que constroem um muro
De sentimento nenhum.
Por RGM às 10:37
Tu que me olhas
Com os olhos tristes e longos
Que a saudade te emprestou
Pode me amar
Mas vai me olhar bem de longe
Que onde tu não me enxergou
Foi que te vi
Pois te gostei foi de lá
Não daqui, todo cuidados
Gostei de ti
Assim distraído, indo
Não vindo, todo saudades
Então vai ali
Que essa distância é igual
Ao tamanho do meu amor.
Por RGM às 10:35
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Quinta-feira, Fevereiro 23, 2006
Todos sonham, sonham o mesmo
Sonham ouvir, ouvir o mesmo
Assim tu me disse e eu entendi
Sonhei uma vida, levada do todo
E esse sonho, vivido do todo
É ele mesmo e eu entendi
Mas se eu explicasse, erraria
E que beleza teria dizer
Que as partes contém
A essência do todo?
Por RGM às 16:20
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Terça-feira, Fevereiro 21, 2006
Kiss me goodbye
Pushing out before I sleep
Can't you see I try
Swimming the same deep water as you is hard
"the shallow drowned lose less than we"
You breathe the strangest twist upon your lips
"and we shall be together..."
The Same Deep Water As You - Desintegration - The Cure
Por RGM às 07:04
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Terça-feira, Janeiro 31, 2006
Há
Casas
Nós e a voz
Garfos e facas
E abraços a sós
Portas, copos e armários
Mágoa guardada e casais
Salas mais quartos, ó opiário
Dois brutos que nem a água desfaz
Dois corpos em que o ódio os atrai
Pedra, pó e a cama desfeita
Vida onde o tempo se esvai
Leito que a morte espreita
E abraços tão sós
Garfos e facas
Nós e a voz
Casas
Ah...
Por RGM às 20:50
"It must be the colors
And the kids
That keep me alive
'Cause the music is boring me to death"
Colors And The Kids - Moon Pix - Cat Power
Por RGM às 20:49
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Domingo, Janeiro 22, 2006
Lali Puna - Faking The Books
We've been done before
And now we try to forge ourselves
We've been done before
And now we try to forge ourselves
I'll be true again
But until then I'll fake the books
'cause everybody knows
This ain't heaven
Until everybody knows
We've been wrong before
There is a lot that we survived
We've been wrong before
There is a lot that we survived
I'll be true again
But until then I'll fake the books
'cause everybody knows
This ain't heaven
Until everybody knows
é, não tenho tido o que dizer mesmo... at least, I'll be faking the books for a few more days, 'cause life isn't heaven, that's for sure...
Por RGM às 02:55
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Sábado, Dezembro 31, 2005
Os dias escorregam lentamente dentro das noites, e as noites, dentro dos dias. Vidas desmoronam bruscamente nesse movimento. Não, o mundo não tolera as coisas insignificantes que somos. Caímos, corpos sobre corpos; caímos como não houvesse chão, como não houvesse céu; caímos por que os dias e as noites se sucedem, e apenas isso. Mas, caindo, invadimos vidas, invadimos dias e noites, invadimos sonhos e invadimos corpos; misturamo-nos. Agora que eu sei quem eu sou já não tenho certeza de quem eu fui, mas quando eu tinha não sabia quem eu era então. Acho mesmo que eu nunca soube qualquer uma dessas coisas; nunca soube dos anos que passaram, só me disseram que eles já tinham ido, que eles rolaram embora se misturando uns com os outros e suas centenas de dias e noites.
É estranho que eu ainda sinta saudade dos momentos que não aconteceram, mas eu sinto, e, às vezes, é só isso que eu consigo sentir, enquanto a minha vida desmorona de um lugar para outro, enquanto o tempo parece torcido entre espera e alívio e contá-lo de nada adianta. Sinto pelos segundos que não posso mais lembrar e sinto por aqueles que jamais poderia; sinto por cada instante porta afora onde eu não vou estar e por aqueles onde eu estive. Sinto pelos segundos daqueles com quem não pude passar, mas que passaram com eles sem que eu nunca soubesse; e sinto por todos esses que passam agora, por esses que eu passo sozinho, segundos em que eu lembro de tantos outros, mas dos quais nunca mais vou lembrar.
Por RGM às 16:25
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Segunda-feira, Dezembro 19, 2005
Agora ri! (filho da puta)
E não seria a vida uma piada
Se tudo o que eu vi me impedisse
Que dela dissesse um fim ruim
Se não pensasse que um erro é
O começo do dia de morrer?
E não seria chato esse viver
Sem desdenhar dessa cega fé
Sem fazer troça do que é em mim
Não mais que acaso e impelisse
A vida assim no meio do nada?
Ela é engraçada, sem dúvida
Pois de tanto doer me faz sorrir
Não é contada, é pouco ouvida
Grita! Ou não terás mais nada aqui!
Pois não são eles quem tem de ouvir
És tu mesmo, o surdo, o pária, aqui
Quem ouve, pouco se importa. Rir?
É a conseqüência do que eu já vi.
Por RGM às 15:57
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Terça-feira, Dezembro 13, 2005
"If you can`t say what you mean, you can`t mean what you say."
Trecho primoroso das palavras do tutor inglês dirigidas ao seu jovem pupilo real no filme O Último Imperador (Bertolucci); não sei quem ele citava, mas imagino que o autor seja desconhecido. E olha que é difícil uma frase ficar tantos dias na minha cabeça - já se contam 5 dias - mas acho que é compreensível o porquê disso.
Por RGM às 14:28
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Domingo, Dezembro 11, 2005
"While you make pretty speeches
I'm being cut to shreds
You feed me to the lions
A delicate balance
And this just feels like spinning plates
I'm living in cloud cuckoo land
And this just feels like spinning plates
My body's floating down a muddy river"
life just feels "Like Spinning Plates"
most of the time
(Radiohead - Amnesiac)
Por RGM às 10:48
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Sexta-feira, Dezembro 09, 2005
"She said: remember the small things"
Não é a vida uma coisa linda? Não é a vida o colorido de cada estação; não a quantidade de cores, mas a intensidade de cada uma delas? Não é a vida esse constante morrer e renascer? Não é a vida marvilhar-se com cada pequena coisa, percebendo como ela é grande pelas outras coisas da qual ela faz parte? Não é a vida poder rir de todos os clichés que tentamos enfileirar - sem parecerem clichés - quando queremos dizer algo e ainda não podemos, ou não sabemos como, ou simplesmente não sabemos o que dizer?
Eu acho que é, mas se você não acha, meu caro, talvez devesses pensar em drogas, boletas, psiquiatras, pois, falando em clichés, o tempo não espera ninguém e a felicidade está apenas um passo adiante - adiante do outro, e do outro, e do outro...
Por RGM às 19:57
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Quarta-feira, Novembro 30, 2005
Não sei o que diabos quiseram dizer com isso, mas soou tão bem que não me importo, aliás, não me importo com mais nada...
"I've always wanted
To eat glass with you again
But I never knew how
How to talk without
Walls dropping on the eve"
The Mars Volta - Frances The Mute - Miranda, That Ghost Just Isn't Holy Anymore
(se alguém souber, me fale, pois também não me importei em procurar...)
Por RGM às 20:00
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Quarta-feira, Novembro 23, 2005
Eu podia, mas não disse.
Eu devia, mas não disse.
Eu ainda posso e ainda devo, mas é claro que não vou dizer nada.
Afinal, por que dizer qualquer coisa se eu posso continuar nesta insustentável mudez de objetivos nunca revelados e sentimentos sublimados em nome de um bem maior?
Bem maior?
Pano pra manga.
Lá
Naquele lugar mais alto
Onde pretende o cinza o anonimato
Das paredes duras, única face
Desfalece o vidro, desfalece o branco
Esvai-se o grito
Em um grunhido brando
Mastigado do pó urbano
Entre passos gravitacionais
O elã de que é tricotada a vida
É impulso e queda
E nada mais.
Como eu adoro essa cidade, essa sujeira que gruda na pele e não sai no banho. Amo esse barulho infernal que desaparece dentro dos meus fones de ouvido e toda essa poluição visual que desaparece dentro dos meus olhos fechados sob o sol. Calor abrasante do nosso verão tradicionalista: estupidez, barbárie e hormônios. Eu sei que não admito - e se perguntarem me contradigo com prazer - mas eu adoro as pessoas, todas elas. Adoro dissecá-las uma por uma; as belas, as feias, as que não se enquadram, as que foram enquadradas, as quadradas também. Adoro te olhar e imaginar quão absurda é a vida, a tua e a minha:
Agrada-me essa idéia
De vidas desconectadas
Essa imagem tão bela
De estranhos completos
Se nos conhecêssemos verdadeira e completamente, não existiríamos uns para os outros, seríamos todos o mesmo; uma massa disforme escorregando dos aclives urbanos para um oceano sem vida. Por isso que eu te amo e por isso que eu te odeio - e por isso que não tenho vergonha de enfileirar tantos clichés:
porque jamais terás como saber meus verdadeiros motivos, meus verdadeiros objetivos e
muito menos
saber como eu me sinto.
Por RGM às 15:33
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Terça-feira, Novembro 22, 2005
O calor é inimigo da criatividade,
pelo menos da minha ele é.
Por RGM às 18:37
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Sábado, Novembro 19, 2005
Estou pensando seriamente... mas não passa disso.
Por RGM às 18:38
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Sábado, Novembro 12, 2005
Eu leio Drummond ouvindo Myxomatosis; eu tomo iogurte fumando um cigarro; eu digo uma coisa pensando outras; eu te ouço pensando ouvir outras, vozes, pessoas, narrativas despersonificadas na medida da minha paranóia. E sim, sim, sim!! enquanto continuares falando comigo desse jeito, é claro que eu digo sim, é claro que eu te ouço e nunca te escuto, é claro que eu te olho e te trespasso, te empalo, te escurraço; nunca digo o que faço, nunca faço o que digo, eu nunca te disse o que eu acho!!
Nudez
Não cantarei amôres que não tenho,
e, quando tive, nunca celebrei.
Não cantarei o riso que não rira
e que, se risse, ofertaria a pobres.
Minha matéria é o nada.
Jamais ousei cantar algo de vida:
se o canto sai da bôca ensimesmada,
é porque a brisa o trouxe, e o leva a brisa,
nem sabe a planta o vento que a visita.
Ou sabe? Algo de nós acaso se transmite,
mas tão disperso, e vago, tão estranho,
que, se regressa a mim que o apascentava,
o ouro suposto é nêle cobre e estanho,
estanho e cobre,
e o que não é maleável deixa de ser nobre,
nem era amor aquilo que se amava.
Nem era dor aquilo que doía;
ou dói, agora, quando já se foi?
Que dor se sabe dor, e não se extingue?
(Não cantarei o mar: que êle se vingue
de meu silêncio, nesta concha.)
Que sentimento vive, e já prospera
cavando em nós a terra necessária
para sepultar à moda áustera
de quem vive sua morte?
Não cantarei o morto: é o próprio canto.
E já não sei do espanto,
da úmida assombração que vem do norte
e vai ao sul, e, quatro, aos quatro ventos,
ajusta em mim seu terno de lamentos.
Não canto, pois não sei, e tôda sílaba
acaso reunída
a sua irmã, em serpes irritadas vejo as duas.
Amador de serpentes, minha vida
passarei, sôbre a relva debruçado
a ver a linha curva que se estende,
ou se contrai e atrai, além da pobre
área de luz de nossa geometria.
Estanho, estanho e cobre,
tais meus pecados, quanto mais fugi
do que enfim capturei, não mais visando
aos alvos imortais.
Ó descobrimento retardado
pela fôrça de ver.
Ó encontro de mim, no meu silêncio,
configurado, repleto, numa casta
expressão de temor que se despede.
O gôlfo mais dourado me circunda
com apenas cerrar-se uma janela.
E já não brinco a luz. E dou notícia
estrita do que dorme,
sob placa de estanho, sonho informe,
um lembrar de raízes, ainda menos
um calar de serenos
desidratados, sublimes ossuários
sem ossos;
a morte sem os mortos; a perfeita
anulação do tempo em tempos vários,
essa nudez, enfim, além dos corpos,
a modelar campinas no vazio
da alma, que é apenas alma, e se dissolve.
Carlos Drummond de Andrade.
.... pra muitos isso nao é novidade, mas como eu sou um ignorante sem memória alguma, continuo achando maravilhoso ler coisas que já li, coisas que não li, coisas das quais não lembro e, simplesmente, leio de novo, o velho como fôsse novo. E é...
Por RGM às 01:07
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Quinta-feira, Novembro 10, 2005
Godspeed You Black Emperor - Lift Your Skinny Fists Like Antennas to Heaven! - Static
E nada mais a dizer além de
ouçam...
com atenção...
Por RGM às 21:52
Deve ser verdade: uma das piores formas de tortura é arrancar os dentes de alguém. E é como se por não poder falar, não conseguisse escrever também. Ninguém merece isso...
Por RGM às 12:58
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Sábado, Novembro 05, 2005
sono, xadrez, cigarros, mais sono, medo de dormir, medo de continuar acordado, medo de acordar num dia ruim, medo de tudo não passar de um efeito químico.
e a liberdade estúpida de escrever sem medo de parecer ridículo, como agora.
Se, por um acaso, fores uma daquelas pessoas com quem fui ridículamente estúpido, desculpe-me, ou não, mas daí já é problema teu.
Por RGM às 07:50
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Quinta-feira, Novembro 03, 2005
Algumas vezes não se tem o que dizer, mas não se sabe ficar quieto; eu não, pelo menos. Depois de dizer tanta merda, tantas vezes, acho que desta eu acertei.
wannabe this, wannabe that...
e simplesmente não somos.
Leonard Cohen - Songs of Leonard Cohen - Teachers
I met a woman long ago
her hair the black that black can go,
Are you a teacher of the heart?
Soft she answered no.
I met a girl across the sea,
her hair the gold that gold can be,
Are you a teacher of the heart?
Yes, but not for thee.
I met a man who lost his mind
in some lost place I had to find,
follow me the wise man said,
but he walked behind.
I walked into a hospital
where none was sick and none was well,
when at night the nurses left
I could not walk at all.
Morning came and then came noon,
dinner time a scalpel blade
lay beside my silver spoon.
Some girls wander by mistake
into the mess that scalpels make.
Are you the teachers of my heart?
We teach old hearts to break.
One morning I woke up alone,
the hospital and the nurses gone.
Have I carved enough my Lord?
Child, you are a bone.
I ate and ate and ate,
no I did not miss a plate, well
How much do these suppers cost?
We'll take it out in hate.
I spent my hatred everyplace,
on every work on every face,
someone gave me wishes
and I wished for an embrace.
Several girls embraced me, then
I was embraced by men,
Is my passion perfect?
No, do it once again.
I was handsome I was strong,
I knew the words of every song.
Did my singing please you?
No, the words you sang were wrong.
Who is it whom I address,
who takes down what I confess?
Are you the teachers of my heart?
We teach old hearts to rest.
Oh teachers are my lessons done?
I cannot do another one.
They laughed and laughed and said, Well child,
are your lessons done?
are your lessons done?
are your lessons done?
Por RGM às 19:40
- Não há vida! Não há vida!! Não há nada...
Proferiu, gritou e calou; pedaço de vidro e metal, um buraco na alma que reflete a face que o espelho não conteve; negra pupila onde ele se viu quebrar. Não, não existe vida; ele a tomou nos braços, nas duras mãos que não respiraram por ela; ele a segurou e nada, nenhuma luz, nenhum canto, nenhuma lágrima. A vida acabara ali e já estava dissecada por seus pensamentos; facas que mergulharam em busca do que lhe era mais querido, ele mesmo.
Por RGM às 19:23
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Quinta-feira, Outubro 27, 2005
Essas pequenas luzes faiscantes
Tão singelamente
Acenderam a minha madrugada insana
Pingaram a luz dos mortos nos meus olhos
E me abandoram às trevas desperto
Acordei e te olhei
Não estavas mais lá
Não me movi
Eu te esperei
Mas não voltaste
Na minha pele
O frio de uma lâmpada
Moveu-me
Durante todo um dia
Luzes frias
Moveram-me
Esgueirei-me entre vidas
Senão cuidei não alterá-las
Mas entre nove metros vazios
Não tive corpo, senti-me só
Não te acendeste para mim
-Ascendeu ao cinza?
-Piscou e explodiu.
-Raios...
Por RGM às 18:49
Passo e nota
Sustém, suspiro
Inundação em ondas
Vaga d'água afogada
O escuro, cheio
Intervalo
Nota breve, o toque cheio
Onda inundada
Sustém, passo longo
Longo... Nota cheia
Repleta, o silêncio
Onda, esvaziando-se
A música, quase morta
Sustém, suspiro, e morte.
Por RGM às 18:36
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Segunda-feira, Outubro 17, 2005
Phillip Glass, trilha sonora de As Horas, I'm going to make a cake. É por isso que eu não durmo e é por isso que durmo demais; é por isso que eu não vivo e é por isso que eu não morro. Só isso...
Por RGM às 01:28
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Quarta-feira, Outubro 12, 2005
Um passo e um olhar, é assim que os prédios se tornam molduras e cada rua, um mergulho. Eu inspiro e caminho, paro, admiro. Toda paisagem tem ao menos um corpo vivo, uma camada de tinta que brinca por cima das outras e me exige um sorriso e uma lágrima. Sempre os dois, nunca só um. Nessas imagens nada realmente se move, apenas essa alma, esse pedaço de vida que insiste em dizer: eu existo.
Protásio Alves, Hospital de Clínicas, hora do rush, e um balão rosa pulando entre carros e ônibus, por sobre a parada, a mureta, as grades de contensão. Uma pincelada rosa em uma tela cinza de uma paisagem apagada. Um sorriso e uma lágrima, a medida exata para inflar um balão rosa que ao pousar na grama
... estoura...
Por RGM às 20:44
A Partida Segunda.
- Tu ficas comigo?
- Não sei ainda, tô com vontade de ir logo.
- Mas por quê? Fica aqui, não foi ninguém embora ainda.
- Por isso.
- Ah... Não vai sozinho, agora não é bom. Precisas mesmo é conversar um pouco.
- Por quê?
Silêncio...
- Fica, vai te fazer bem.
- Tá, mas por quê?
Bebendo do copo como quem encerra uma ação - era o último gole - toma a alça da mochila em uma das mãos para em seguida recolher um maço de cigarros com a outra.
- Fica. Se quiser não precisa falar nada.
- Tá, mas...
- Eu também não. Podemos ficar quietos, não podemos?
Suspiro... Resistência confrontando a paciência, autonomia constrita pela apreensão e a tentativa vã de apaziguar a mágoa:
- Tu sabes que não é por tua causa, não é?
- Eu sei, tu já me disse isso, mas se tu não ficar eu vou achar que é.
- Isso não é justo, tu sabes que não é assim...
- Não, eu não sei.
Alterando levemente o tom de voz, meio-tom, tornou-se metade incompreensão e metade apreensão.
- Tu não me diz como é, tu não me diz como te sentes e eu não sei mais o que fazer.
- Desculpa...
- Tu não precisa te desculpar, é só que...
Silêncio; pensamentos que se separam e o silêncio que os afasta. Como uma cunha de madeira martelada surdamente, o silêncio é alto como o rachar das duas partes, grito que se levanta de onde agora há dois.
Será que ela não percebe, não percebe esse abismo entre o que eu consigo dizer e o que eu preciso que ela entenda? Se ao menos não me pedisse para explicar o que eu não posso...
Transpondo espaços e reaproximando mundos, uma mão buscou a outra, mas despencou no vazio irreparável dos corpos que se afastam; corpos que também escreveram no vazio a sua queda, no vazio onde antes havia um mundo. O grito que se erguia não cessou e eles já não se ouviam; o colapso dos seus sentimentos finalmente os diferenciou - parado à porta tentou encontrá-la - já não se reconheciam.
Por RGM às 20:34
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Terça-feira, Outubro 11, 2005
A Partida Primeira.
- Tu vens comigo?
- Não sei ainda, tô com vontade de ficar mais um pouco.
- Mas por quê? Vem junto, não ficou mais ninguém aqui.
- Por isso.
- Ah... Não fica sozinho, agora não é bom. Precisas mesmo é conversar um pouco.
- Por quê?
Silêncio...
- Vamos, vai te fazer bem.
- Tá, mas por quê?
Bebendo do copo como quem encerra uma ação - era o último gole - toma a alça da bolsa em uma das mãos para em seguida recolher um maço de papéis com a outra.
- Vamos. Se quiser não precisa falar nada.
- Tá, mas...
- Eu também não. Podemos ficar quietos, não podemos?
Suspiro... Resistência confrontando paciência, autonomia constrita pela apreensão e a tentativa vã de apaziguar a mágoa:
- Tu sabes que não é por tua causa, não é?
- Eu sei, tu já me disse isso, mas se tu não vier eu vou achar que é.
- Isso não é justo, tu sabes que não é assim...
- Não, eu não sei.
Alterando levemente o tom de voz, meio-tom, tornou-se metade incompreensão e metade apreensão.
- Tu não me diz como é, tu não me diz como te sentes e eu não sei mais o que fazer.
- Desculpa...
- Tu não precisa te desculpar, é só que...
Silêncio; pensamentos que se separam e o silêncio que os afasta. Como uma cunha de madeira martelada surdamente, o silêncio é alto como o rachar das duas partes, grito que se levanta de onde agora há dois.
Será que ela não percebe, não percebe esse abismo entre o que eu consigo dizer e o que eu preciso que ela entenda? Se ao menos não me pedisse para explicar o que eu não posso...
Transpondo espaços e reaproximando mundos, papéis repousaram sobre a mesa e uma mão tocou todos os sentidos, compreendeu e mostrou que o fazia deslizando dos cabelos à face e ali segurando levemente não mais que um instante. Agora olhos podiam se ver novamente e as palavras que há pouco os afastavam podiam esperar as frases certas. Sorriram e, ao menos dessa vez, das bocas saíram as últimas palavras, absolutamente mudas, mas finalmente completas.
Por RGM às 19:05
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Segunda-feira, Outubro 03, 2005
Alguém aí se dispõe a fazer um layout para esse blog? Pago, mas tem q sair como quero e deixar funcionando plenamente. Mande mail ou deixe comment.
Por RGM às 18:44
Palavras estranhas para acordar, para pensar enquanto a vida não é nem sonho nem realidade; palavras que se juntam e se separam, que se desintegram assim que pronunciadas; palavras que conspiram para viver em mim uma vida que não é minha; acordo e calo. Tu perguntas porque, eu calo; vais embora, eu calo. Tua vida desaparece dentro de um táxi; retorna para o fluxo e refluxo urbano e um dia escorre por um bueiro; flui embora como fluem palaras não pronunciadas, ambas voltam para onde conspiram viver em mim. Eu calo.
Dormia? Nunca vou saber. Ninguém jamais te viu, além de mim. O cheiro era o que eu queria sentir, o gosto, a voz, a saudade; a tua partida foi como eu queria partir; o que tu sentia era como eu queria sentir. Viveu mais em mim do que eu poderia viver e lembrar no dia seguinte, aquele momento, aquela percepção peculiar da realidade, impresso na minha memória em cada pequeno detalhe, aquela impressão... Acordei lembrando que eu vivi, mas agora, agora eu já não sei mais...
Por RGM às 18:40
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Terça-feira, Setembro 27, 2005
Horas mágicas - ela disse - horas mágicas... O tempo parece consumir a si mesmo, como parece fazer o álcool, a angústia, as pessoas. Mas é sempre outro que nos consome. O tempo é consumido pela espera; a minha calma, pela tua demora; eu, pela tua ausência. A tua proximidade é uma espreita, um susto à minha rotina, o romper brusco dos meus pensamentos. É o nunca chegar depois de sair; vagar e vagar... Pareces sempre tão iminente, mas não; nenhum de nós encontra o caminho, encontra sua casa; nenhum de nós encontra o outro, nenhum de nós encontra nada.
Eu escrevo onde os outros apenas passam; tento pegar essas idéias que os caminhantes perdem pelo caminho, esses pedaços que se desprendem das vidas deles e acabam secando junto ao meio-fio. Eu paro onde ninguém pára, onde ninguém olha, onde ninguém pensa. Eu te espero onde ninguém vai; eu te procuro de onde não se vê nada; eu te amo pelo o que não pode ser amado, um sonho.
Horas mágicas, horas mágicas...
(Explosions in the Sky - How Strange, Innocence - Magic Hours
Por RGM às 17:20
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Segunda-feira, Setembro 26, 2005
"Amar é mudar a alma de casa."
Quintana
Não que eu tenha me mudado, mas bem que gostaria...
Por RGM às 16:21
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Quinta-feira, Setembro 22, 2005
Idiota, simplesmente idiota...
E perguntou a abelha:
-Como está seu marido, dona cigarra?
-Ele está bem, o narrador idiota parou de fumar e estragou a piada.
Eu disse q ia ser idiota...
Por RGM às 20:39
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Segunda-feira, Setembro 19, 2005
Em um olhar, reflexo e nuvem tornam-se um só, o brilho da íris e a opacidade do céu; lágrima e chuva, tornam-se uma só.
Mas a gente chora e então dorme, toma tudo de volta. A gente acorda, mira o infinito, joga tudo fora, todas as imagens, as belas e as feias; chora e dorme, sonha, acorda e morre. E dia após dia, esses segundos feitos vazios, feitos de movimentos que se perdem no escuro, empilham-se uns sobre os outros, sobre a mesa da sala, sobre a mesa de jantar, sobre todas as superfícies, como pó que se desprende da vida e nada faz senão marcar o tempo que perdemos em movimentos desarranjados pela luz que se apaga sozinha.
Um guarda-chuva que desabrocha, espirra a água das suas pétalas em milhões de gotículas e sorri bela e agradavelmente às nuvens. O transeunte um passa e desvia, olha para não esbarrar, mas atropela a vida do transeunte dois; olham-se, reconhecem-se, são anônimos, desculpam-se pelo anonimato e seguem.
A flor que mirava o céu não os conheceu, recepcionava a chuva e mais nada. Contava as gotas que vinham pular no seu rosto de flor, nas suas pétalas de guarda-chuva, e mais nada. Levada às cegas pelo vento, desfazendo-se em pó sobre uma mesa qualquer de uma sala qualquer, desapareceu sorrindo, desarranjada pelo apagar das luzes.
Acordei e o infinito pareceu menor, joguei fora uma imagem bela, guardei as feias; e a vida, descarnada, uma sala vazia, foi esbarrar com ela mesma, esfacelada em duas que desapareceriam chorando, esfacelando-se em outras, todas surpreendidas, à meio caminho, pela mesma luz que se apaga, pelo mesmo pó que amontoa, pelo movimento único que cessa.
(Mogway - Happy Songs For Happy People - Stop Coming To My House)
Por RGM às 18:43
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Sábado, Setembro 17, 2005
Tá difícil escrever; tá difícil até de pensar. Tá difícil de dormir e tá difícil de acordar; tá difícil até de não sonhar. Tá difícil de estudar e tá difícil de parar: de ler; de esperar; de fitar; de delirar. Tá muito difícil de parar de fumar. Mas dessa vez vai, custe o que custar.
obrigado pelos posts tão amigáveis, de elogios q mesmo penso não merecer de um todo.
baixei uns sons:
Sigur Rós - Takk; (); Ágætis byrjun; Angels Of The Universe; Baba Tiki Dido; Hlemmur; Odin's Raven Magic; Von.
Mogway - all tomorrows parties; come on die young; happy songs for happy people.
Mars Volta - De-Loused in the Comatorium; Frances The Mute; Tremulant.
Clinic - walking with thee; Internal Wrangler.
Four Tet - Dialogue; Pause; everything ecstatic.
Explosions In The Sky - how strange, innocence; those who tell the truth shall die, those who tell the truth shall live forever; the earth is not a cold dead place.
Godspeed You Black Emperor - #f #a oo; yanqui uxo; Llift Your Skinny Fists Like Antennas to Heaven.
Set Fire To Flames - telegraphs in negative / mouths trapped in static; sings reign rebuilder.
Zero 7 - When it Falls; Another Late Night; Simple Things.
algumas coisas eu já tinha, outras eu baixei de novo; de umas eu já enjoei e de outras eu aprendi a gostar; era isso...
Por RGM às 22:41
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Quinta-feira, Agosto 25, 2005
Pois é... primeira parte de um poema em mutação, mas quero postar mesmo assim. Se ele mudar, foda-se, se não gostares, foda-se vc tb.
A dor e o desalento
O pensamento jogado em um espelho d'água
O teu olhar perdido no infinito
E o meu, tentando te encontrar
O vazio das nossas noites
Das nossas vidas, dos nossos abraços
A solidão das nossas palavras
Do nosso gozo, das nossas mortes
O desespero mudo espreitando a calma
A loucura seduzindo a sanidade
Arrastando-me para o fundo do lago
Para o outro lado desse espelho
Para o outro lado da nossa humanidade
E então o escuro, somente o escuro
Nenhum corpo, nenhuma forma
Nenhum desejo fremente, nada
Eis que surge então o medo
Como que feito da própria escuridão
Envolvendo-nos, nós que já não somos
Eu, que sou apenas esses pensamentos
Que eu joguei na minha própria insanidade
E afundaram, como pedras, sem saber
Que tu nunca existiu, nunca foi
Senão um espírito que não viveu
Uma invenção sem alma, sem vida
Que agora me assombra como não fosse eu
E ladra e rosna, ameaça e atormenta
Reclamando a vida que não posso te dar
Exigindo a morte que não posso morrer.
Acordo, lavo o rosto
E bem na minha frente
Emoldurados em um armário ordinário
Nossos olhares finalmente se encontram
Vidrados, mas tristes
E cheios de mágoa.
Por RGM às 21:25
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Quinta-feira, Agosto 04, 2005
Agrada-me essa idéia
De vidas desconectadas
Essa imagem tão bela
De estranhos completos.
"I will lose myself tomorrow
Crimson pain
My heart explodes
My memory in a fire
And someone will listen
At least for a short while..."
The Cure
Por RGM às 20:19
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Terça-feira, Julho 26, 2005
Os meus livros?
Eles têm a marca da minha caneca
E a caneta, das minhas mordidas.
O pó descansando na mesa
Tem a marca dos meus pensamentos
E o pó da minha cama
Não tem marca nenhuma.
A minha pele?
Essa tem a marca desses anos velozes
E a minha alma, dos momentos eternos.
No escuro dos meus olhos fechados
Vejo ainda a marca dos belos detalhes
E quando os abro para ti, o que vês
É uma saudade que não compreendes.
A minha tristeza?
Ela é quem me tem, minhas marcas,
Meus pensamentos, minha saudade.
A tristeza tem as marcas da solidão
Com que eu a acompanho há anos,
Mas na minha vida, só há uma marca,
Sempre nova, sempre dura, sempre eu.
Por RGM às 17:08
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Terça-feira, Julho 05, 2005
Eu escolho o vermelho
Essa mancha presa nos meus olhos
Escolho esse vermelho livre
Das pétalas arrancadas
Dos corpos extasiados
Escolho esse líquido pegajoso
Da face rubra dos amantes
Da vida colhida a facadas.
Na minha ânsia de morrer
Fascinam-me os teus lábios
Os teus olhos, o teu colo
Fascina-me não saber nada
E te amar pelas minhas dúvidas
Mergulhando essas flores secas
Em taças de vinho abandonadas
À beira de uma cama vazia.
Por RGM às 18:52
Pra cima e pra baixo
Para os lados
Pra frente e pra trás
Parados no meio
Sempre parados
"You never talk
We never smile
I scream you're nothing
I don't need you anymore
You're nothing
It fades and spins"
Como em um grito de dor
Eu giro e desapareço
Permanece o meu eixo
A angústia lamuriosa do vento
Preso em cabo de aço.
Por RGM às 18:48
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Segunda-feira, Junho 20, 2005
"Never Enough"
Dream Theater
Cut myself open wide
Reach inside
Help yourself
To all I have to give
And then you help yourself again
And then complain that
You didn't like the way
I put the knife in wrong
You didn't like the way
My blood spilled on your brand new floor
Por RGM às 21:23
Não sei se te amei realmente
Sei apenas que eu não era
E tanto menos eras tu
Partes da realidade.
Mas aquela que existia à parte
E o eu que desvanecia em linhas
Amaram-se de algum modo
E esqueceram.
Muito mais eu esqueci desde ti
Com muitas outras eu morri
E deixei morrer aquilo
Que eu não era.
Assim eu cheguei ao que sou hoje
Em pedaços salvos da realidade
Pedaços salvos dos sonhos
De quem morreu.
Por RGM às 21:18
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Terça-feira, Maio 31, 2005
Quantos versos, frases, estrofes, para amortizar isso que teima em me queimar as entranhas?
If you think that you're strong enough
Nice dream!
Por RGM às 10:47
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Quinta-feira, Maio 19, 2005
E só para ilustrar:
"And so it is
just like you said it would be
life goes easy on me
most of the time
And so it is
the shorter story
no love, no glory
no hero in her sky"
Por RGM às 14:35
O que eu tenho feito, eu realmente não sei, na verdade, essa resposta é até mesmo precisa demais. Eu sei o que não fiz, isso sim, com todos os detalhes não realizados. Eu não escrevi, nem poemas, nem a história que comecei, não escrevi sequer os tormentos que guardo para este blog. Também não liguei para ninguém, e isso não é novidade. Não achei o apartamento que eu queria e nenhum emprego soube que eu o esperava. Não fui ao cinema e parece que todos os filmes saíram de cartaz. Não me decidi sobre o meu curso e tampouco refleti sobre as opções. Não disse que precisava de ajuda, não encontrei a quem dizer eu te amo, não fui feliz até saber que era triste.
É estranha essa vida; queria sentar na varanda e ver as famílias dentro de suas janelas perfeitas, mas eu não tenho varanda. Às vezes vou fumar na janela e como um dia vi uma garota sentada na sua própria janela imperfeita fico esperando vê-la novamente, mastigando a tola impressão de um motivo suficiente para assumir um hábito diário.
Tentei escrever, entre as coisas que não terminei, sobre os garotos de rua e a furiosidade com que as pequenas sacolas plásticas os consomem; sobre os mendigos e como seus caminhos nunca encontram uma casa; tentei até mesmo escrever sobre o medo e a segurança pública - que piada... Acabei cheirando cola após ser assaltado e ter esquecido o caminho de casa. Não, o mundo não existe, senão onde eu estou, senão onde ele sobrevive dentro de mim e eu o alimento aos bocados da minha própria insignificância. Existisse tal realidade e eu não saberia quando a moça está ou não na janela; não saberia que serei assaltado, ou que os caminhos nunca levam para casa, ou ainda, oh final infeliz, que só restarão as ditas sacolas plásticas.
Obviamente este é um devaneio tão contraditório quanto a minha própria egocentricidade, mas até onde cada uma dessas visões não são personagens meus? Quando eu paro de observar a vida e passo a compô-la para o meu único e egoísta prazer? Isso eu não saberia dizer, afinal, não seria absoluta loucura dizer às pessoas que conversei durante horas com elas se eu soubesse o que elas disseram, ou que trabalhei a valer e voltei para casa se eu soubesse o que fiz e onde cheguei. Não, não seria loucura. Em verdade, posso mesmo dizer que estou enjoado de pipoca e cinema, que o meu curso não poderia estar melhor agora que o troquei, que jurei meu amor incondicionalmente e à ela dediquei um romance e um livro de poesia; poderia até mesmo, veja que ironia, responder-te que vou bem.
Por RGM às 14:23
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Segunda-feira, Janeiro 10, 2005
No news, no kills...
Nada novo nos meus dias. Meu ano-novo começou tão velho quanto o o que passou, arrastado, quente, rabugento.
Uns versos abandonados então, para combinarem com as resoluções que neste fim-de-ano nem me dei o trabalho de formular.
Como pedras que tombam frias e mudas
Nas águas escuras de um lago profundo
A vontade e o desejo que aqui abandono
Jazem em silêncio no fundo do medo.
Por RGM às 15:28
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Sexta-feira, Dezembro 10, 2004
Eu nunca lembro o que é ermo
O que assombra a casa
O que esvazia espaços
Eu nunca sei se sou eu
Ou se sou outro
Se é ninguém
Sabe-lo-ia se fosse dia
Se não fosse escura
Essa distância
Se não fosse tola essa alegria.
Como pode, um mirante assim tão ermo? Eu, sentado ao largo da vida que passa, procurando palavras e encontrando frases refeitas. Preso à tudo que existe, parte de tudo que existe, mas sempre tão só. Meu olho, às vezes tão próximo, parece afastar-se e perder o foco, perder os detalhes; sou lançado para dentro de mim mesmo e olho para fora, miro a vida, que não encontro mais, como se me sentasse na lua para melhor ver as pessoas, não vejo mais. Vejo a representação do que elas significam para mim; vejo formas, as únicas que conheço; vejo o mundo, mas como dele eu me lembro. Não visse mais nada, talvez fosse melhor, talvez então me enxergasse e pasmo com a realidade eu chorasse, vertendo lágrimas de olhos que eu não teria mais, enxergando-me no deserto vazio que eu já não distinguo entre mim e o espaço onde estou.
Por RGM às 11:08
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Terça-feira, Novembro 09, 2004
Triste Simplicidade.
Se fosse tudo tão simples
Quanto as cores do poente,
Quanto as primeiras notas
Da sonata que tem a Lua,
Ou tão leve e passageiro
Como são as nuvens no horizonte,
Então, bem, talvez eu vivesse
De suspiros de satisfação,
Talvez eu tivesse
Algo dessa adoração
Que alguns carregam no olhar
E choram em seus poemas.
Se a vida fosse mais simples,
Não de um todo, mas um pouco,
Talvez eu te amasse
E a cada idéia complicada,
Talvez até aceitasse
Essa tola ingenuidade
De quem vê graça no nada,
Complica o pouco que é simples
E ignora a minha complexidade.
Por RGM às 13:44
Sinceras desculpas
... pela minha irregularidade, inconstância. Sinceras desculpas por esse vai-e-vem, por essa incapacidade à rotina. Sinceras desculpas não só pela falta de textos, não só pela falta de atenção, não só pela falta de eu. Sinceras desculpas pelo excesso de eu, pela atenção exagerada que foge de um lado à outro, pelos textos que desabam em avalanches após dias represados.
Sinceras desculpas pela minha inconstância, mas não a desejaria de qualquer forma diferente.
Por RGM às 13:36
O que tem aquele que não tem mais amor? Aquele que deseja e não entende o seu desejo, deseja o que?
Eu fiz o céu alaranjado, o pôr-do-sol, fiz um mar sem ondas e o sol mergulhar nele. Eu fiz a árvore em que me encostei e fiz o olhar que me encontrou. Eu fiz o sentimento que tu me deste, mas o fiz vazio para devolver-te.
Tenho apreço pelas coisas que faço, um apreço repleto de desdém por tê-las feito. Confuso? Nunca pretendi ser claro; minhas pupilas se dilataram e eu detestei o dia. Amanheci assim, desgostoso dos deuses, das mensagens de paz, das juras de amor. Amanheci por não querer o sono e errei por não querer acordar.
Terei sido vago o suficiente? Nunca penso que sim, mas tampouco me apraz divagar. Gostaria de ser direto, não auto-biográfico, de ter a boca cheia de versos e não de sentimentos queimados. Gostaria de traduzir tudo em uma série de romances, ficar famoso, autografar em feiras e me atirar num poço. Talvez ainda ter boas risadas ao ouvir de alguns que eu tropecei; como julgam-me simplório, como gosto de não o ser.
Ser direto... Sou um pensamento perdido entre a descrença do amor e a espera do mesmo, o que me tortura é ter consciência disso e o que me alivia é admitir a culpa. Releguei ao tempo o que era então agora, incumbi os outros do que cabia a mim e julguei de todo falho o que só era imperfeito, a minha natureza, aquilo que deveria antever os erros e o meu destino e não o supor inevitável. Entreguei os meus erros e o meu destino por uma natureza que não me permitia a vida, quando a tomei de volta, tomei os trabalhos de um semi-deus.
Hoje eu não amo, não reconheço o que seja amar e, ainda assim, preciso, contra as minhas piores críticas, aprender como. Hoje e nos dias futuros eu tenho os meus erros, tenho o meu destino e tenho uma razão cheia de imperfeições para lidar com eles. Uma razão que naturalmente é apenas racional, mas que eu empederni de mágoas; fantasmas que me dão um futuro errado e tentam se perpetuar. É menos hercúleo ter à mente todas as instâncias da minha consciência? Ter em mãos paixões, razão e não sucumbir à nenhuma e nem tampouco ignorá-las?
Dos meus desejos, não os entendo por eles serem vazios de um desejo maior. Aquele que deseja e não entende o seu desejo talvez queira um motivo para desejar além da pura satisfação. Eu? Continuo preocupado em satisfazer o meu ego,desejo menor, daqueles vazios; dos fantasmas, o mais querido, persistente e credor dos meus dias presentes.
Por RGM às 13:27
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Sábado, Outubro 02, 2004
Circularidade
Eu? Não...
Engano teu
Mas nenhum outro
Senão o meu
Para dissimular e negar
Omitir pensamentos
Esquecer detalhes
Perder o todo
Mas são tantos os detalhes. São rostos que querem surgir em corpo alheio, sempre vindo, mas nunca eles, nunca chegando, nunca surgindo. Silhueta que insiste, mas não pode e de não poder nunca é rosto, é só ninguém. O que eu sou senão esse rosto, essa feição disforme do desalento? Sou o humor do moribundo, causticante, sou a obsessão do viciado, delirante e o delírio do louco, sufocante.
A vida tratou de me trazer alegrias, o dia-a-dia, de levá-las consigo, sorrateiramente, espreitando o leito daquele que morre pela manhã, adormecido pela morfina e sufocado pelos seus sonhos. Acordo. Não morri. Ainda há dia, aquele dos outros, nunca o meu. Ao menos se fosse o teu; tu, que eu não conheço, e eu. Mas nunca é, não é...? Vem dia e não é nós, é apenas eu. Vai dia e eu nunca vejo o rosto surgir da silhueta que insiste
Em perder o todo
Em esquecer os detalhes
Em omitir pensamentos
Para dissimular e negar
Se não o teu
Mas nenhum outro
Engano meu
Eu? Não...
Por RGM às 03:46
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Quarta-feira, Setembro 22, 2004
Paris Hilton escreve um livro de dicas, sabe-se lá do que; uma outra gorda estúpida dá uma entrevista no programa de um outro gordo estúpido, mas que pelo menos tem alguma bagagem cultural (além da gordura), sobre as palestras de auto-ajuda que ela está ministrando no Japão. Agora a coisa mais curiosa - ao menos para mim foi - as ditas palestras começaram em função da comunidade brasileira que sub-habita Tóquio, até aí tudo bem, mas dada a presença - segundo ela própria - de dois empresários japoneses que não falavam português, mas que gostaram absurdamente da palestra - não sei como - esta mesma passou a ser ministrada também, e exclusivamente, para o público japonês. Ainda segundo esta nova diva dos desesperados - que eu faço questão de não lembrar o nome - o sucesso se dá em virtude da expressão corporal do brasileiro - isso não posso negar, ela, com seus sei lá quantos quilos, rebolando entre os japas, ou provoca riso, ou é só desespero. Obviamente, a palestra passou a ter tradução simultânea; mas onde eu quero chegar com esta crítica gratuíta?
É o seguinte, palestras e cursos de auto-ajuda ou auto-motivação são o embuste do século. Claro que aqueles que nunca foram, ou foram e se desagradaram, provavelmente concordam comigo, porém, já aqueles que viraram freqüentadores assíduos, bem... esses não têm mais esperança, ou têm? Creio que eles têm, não tem é para eles, afinal eles se encheram de uma capacidade de auto-afirmação no mínimo estúpida e livrar-se desse vício psicológico deve ser pior que largar a heroína. O depoimento ingênuo, para não dizer estúpido - novamente - dessa diva forjada da nossa própria fragilidade apenas não se mostrou óbvio para quem compartilha dessa visão deturpada de se auto-afirmar. Pois, o que denota dois japoneses que não falam português acharem genial uma palestra de auto-ajuda sem tradução? Não apenas denota, esfrega na cara daqueles que procuram aplicação para o seu conhecimento que não basta saber, aliás, pouco importa saber, é necessário carisma de político. E ela tinha, se concorresse por São Paulo, levava o Serra e a "mãe do Supla" de lambuja, ganhava corações e mais corações com aquele rebolado horroroso.
Quanto ao conhecimento, um outro detalhe que merece uma nota, para se conhecer há de se ter capacidade para tanto; pois vejam bem, ela ainda mostraria fotos na dita entrevista. Fotos? Estaria salva a viagem da diva? Não... Ela arrotou com toda sua arrogância ocidental o quanto achava "feia" a submissa polidez dos orientais. As fotos vieram como complemento da sua crítica, mais uma vez, ESTÚPIDA, da cultura oriental, exemplificando as óbvias diferenças - precisava? - através de fotos de banheiros públicos. Sim, mais uma que tem fixação por banheiros. Não é necessário dizer que para um entrevistador que aspira a comediante a entrevista caiu como uma luva, dando margem a todo tipo de piadas sem graça, trocadilhos infames e apelidos carinhosos sobre a condição física de ambos. Da questão do conhecimento, é óbvio que uma "ameba" nunca vai aprender a fazer turismo, então não deveria sequer ter começado a minha própria crítica. Porém, indigna-me que alguém vá ao Japão e ache a coisa mais surpreendente ver um banheiro moderno com um buraco de louça no chão ao invés de uma privada, tudo bem que seja curioso, mas a destacar como a coisa mais relevante que viu, bem, coitada. Do resto, ela criticou o "sorriso amarelo" dos japoneses, o tipo de saudação que eles praticam - que me sumiu o nome agora - a submissão da mulher oriental - ao que até concordo, com restrições - enfim, falou de tudo o que não devia e da pior maneira possível, como alguém tão cheia de si mesma de modo a não poder compreder uma cultura diferente pelo o que ela simplesmente é. Digam-me, o que uma bossal dessas é capaz de ensinar em uma palestra, além de como inflar um egocentrismo emburrecedor e preconceituoso? Talvez a rebolar... Mas, sinceramente, para isso prefiro comprar o livro da Paris Hilton.
Por RGM às 12:02
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Sexta-feira, Setembro 10, 2004
Bem, dizer o que... A crise não está passando, dessa vez parece ter estagnado de vez as minhas palavras. Não são as rimas que me faltam, pelo contrário, tenho brincado de pensar rimando, coisa de louco morando sozinho. Na verdade é uma falta de poesia no mundo, uma crueza de pensamentos mesmo, como fossem sentenças caindo sobre o réu abatido - meus dias. Mas ficar assim não dá mais. Esse blog foi uma das poucas coisas que nas minhas piores horas ainda trazia algum prazer - alegria é no mínimo irreal pra ser usado tão facilmente, não, não trazia alegria. Prazer sim, mesmo sem comentário algum, causava-me algum regozijo saber que estava exposto ao público ao menos aqui; então, não dá pra continuar parado.
Se eu não tenho poesia nos meus dias, restam-me as poesias alheias.
Sublinhei há alguns anos em uma agenda com poesias de Quintana:
"Minha vida não foi um romance,
Minha vida passou por passar.
Se não amas, não finjas, que vivo
Esperando um amor para amar."
Passado não muito, alguém sublinhou noutra página:
"Se tu me amas, ama-me baixinho.
Não o grites de cima dos telhados.
Deixa em paz os passarinhos,
Deixa em paz a mim!"
E querem saber? Foi uma das melhores lições que já aprendi na vida, inúteis enquanto separadas, só agora percebo isso. A lição? Aprendam como eu, sôfrega e demoradamente, sozinhos. Amor? É algo como todo o resto, sente-se sozinho e cura-se sozinho, e essa não é a lição - isso já sabia de outras idas e vindas...
Por RGM às 16:09
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Sexta-feira, Agosto 13, 2004
Que foda... e eu ainda tenho essas crises de artista barato.
Por RGM às 11:25
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Domingo, Julho 18, 2004
Esperança catada
...às cegas, olhando fotos estranhas, escolhendo as cenas do filme que não vou olhar.
Gosto de testes de personalidade, eles me dizem como gostariam que eu fosse, dizem o que eu já sabia e o que não.
Gosto de beber, de fingir que ainda tenho 17 e não dirijo. Gosto de acordar de ressaca e enfiar uma pontinha pelos pulmões...
Catada de uma carteira vazia sobre a mesa confusa; despertador no chão. Tudo cai, até mesmo a lua, por que não cairia o tempo?
As verdades? Esperanças caem, em desuso, ultimamente. Não sustento nada que o meu próprio peso não sustente, ainda assim, caio.
Tem gente que cai em desgraça, pensam que sabem, mentem. Caem sobre mim com seus corpos gordos e inertes, mentem.
Papel de seda é o sucesso do livro mais vendido, enrola com menos volume; quando se encher, bem, fuma o apocalipse e manda os otimistas para outra lobotomia. Leckter podia ter um gosto estranho, mas não culpo ninguém por caçar as suas próprias refeições.
Por RGM às 09:01
Catando esperança...
"Never thought you'd make me perspire
Never thought I'd do you the same
Never thought I'd fill with desire
Never thought I'd feel so ashamed
Me and the Dragon
Can chase all the pain away
So before I end my day
Remember
My sweet prince
You are the one
My sweet prince
You are the one
(...)"
Não a música, a letra; nas letras, nos bolsos, nos filmes e flogs, blogs, frogs que eu tenho que engolir. Nada disso mesmo, nada novo; nothing new, nothing blue.
Concentro-me para escrever, mas os dedos congelam antes de frio. Sim, estava frio. Naqueles dias velhos, voltando pra casa, parando na beira do barranco para olhar o sol, sentando-me na escada para olhar o sol, perguntando ao meu cão se ele ainda adorava o sol. As gotas secam, não secam? Antes de pingarem, antes de virarem chuva nos casamentos das viúvas tristes, elas secam, não secam?
______________________________sempre tive essa tendência à incoerência
sempre pretendi à loucura uma desculpa_______________________________
______________________________sempre quis a minha impressão concreta
certeza cega de uma métrica desconexa_______________________________
______________________________nunca me cuidei pelo tamanho dos erros
nunca pretendi um erro a um acerto, mas_______________________________
______________erro_____________Veja a cor opaca e gasta da luz no vidro
Olha as mentiras que eu queria mentir, AI___________ de mim _____________
_____________ de ti _____________Filmes roubados, slides queimados, blurp
arroto, dos manjares azedos que esqueci _______________________________
______________________________do regozijo último, espasmo orgasmático
riso de cócegas, dessa cólera depressiva _______________________________
______________________________RiO, das lágrimas, da gota seca sem pingar
? ___________ elas secam, não secam?antes de cair, já molham ___________ ?
__________________________desesperam__________________________
do cigarro, o próximo pigarro, hrrmp___ ? ___dos dias, bem, cabe alguma alegria?
__________________________.pôr-do-sol.___________________________
noite _________________________ dia __________________________noite
______________________ coisas acabam assim _______________________
_____________________________ fim _____________________________
Por RGM às 07:37
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Quarta-feira, Julho 07, 2004
Li duas coisas hoje, entre outras, que eram surpreendentemente minhas. Infelizmente, nenhuma das duas poderia se provar assim. A primeira foi mais desejo de redenção e encontro do que qualquer outra coisa, foi simplesmente ler algo tão sincero que o único sentimento possível foi de inveja. Eu lido com isso todo dia, nos beijos apaixonados das paradas de ônibus, nas lânguidas despedidas nas portas das salas de aula; não é nada novo. A segunda coisa foi mais profunda, remete àquela ânsia por compreensão tão propriamente minha. Baudelaire me conquistou, e não foi com seus versos sensualmente apaixonados, foi com "O gosto do nada"
"Morno espírito, antigamente afeito à luta,
A Esperança, que te esporeava outrora o ardor,
Não te cavalga mais! Deita-te sem pudor,
Cavalo que tropeça em tudo e em vão reluta.
Dorme, ó meu coração; desiste, ó massa bruta!
Espírito vencido, em ti, velho impostor,
Já não tem gosto o amor, nem o tem a disputa;
Não mais a voz do cobre ou da flauta se escuta!
Deixa esta alma sombria, ó Prazer tentador!
Perdeu a Primavera o seu cheiro de flor.
E o tempo me devora em marcha resoluta,
Como a ampla neve um corpo rijo de torpor;
Contemplo do alto o globo túmido e incolor,
E nele nem procuro o abrigo de uma gruta!
Vais levar-me, avalancha, em tua queda abrupta?"
Em outro momento coloco o original em francês, mas esta tradução, até onde me permite o meu parco conhecimento da língua, parece-me correta e muito bem adaptada dentro das dificuldades de se traduzir poesia.
Por RGM às 18:36
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Segunda-feira, Julho 05, 2004
Voando em círculos
Feito mariposa, feito pai ansioso na sala de espera da maternidade, feito carrinho de controle remoto com uma roda estragada. Voando, andando, rastejando; qual a diferença? Afinal, não se está indo a lugar algum, se está andando no mesmo lugar, sem nem mesmo desviar de nada. As coisas assim, esses alvos turvos que tentamos acertar ansiosamente, nem são. Alguém já tentou escrever colocando um título bem grande no alto da folha, como "Amor", "Felicidade", "Morte"? Duvido que tenha escrito algo que preste... Por que seria a vida diferente? Nunca consegui objetivar coisa alguma do meu dia, afora "vou almoçar", "vou pegar o ônibus". Não posso nem mesmo dizer que "vou dormir", porque não passa um ônibus no horário x pra me levar pro sono, ou tampouco posso entrar em um restaurante e pedir 8 hrs de descanso, posso apenas desejar isso, mas sob certos aspectos é certo que não desejo. Só que não consigo pensar as coisas de forma real, tudo parece mil possibilidades e devaneios infinitos sobre estas; no fim do dia percebo que não realizei nada. Pior, percebo que fiquei pensando no que podia realizar, nas possibilidades e impossibilidades. Eu sei - para aqueles que já me julgaram - pode ser apenas uma crise existencial, recheada de futilidade e das particularidades de quem não tem que se sustentar, mas e daí? Seria diferente se agora estivesse sentado diante de uma folha de papel amassada enquanto minha mulher e filhos estivessem sentados numa sala esperando sustento? Acho que não, apenas eu estaria sufocando todas essas ansiedades mais profundas com problemas imediatos, problemas como chegar na parada de ônibus no horário. Fiquei sabendo que uma amiga está grávida. Não sei se choro ou se morro de rir. Acho que morrer rindo deve ser mais agradável, bem mais agradável, até mesmo porque - pensando cá com os meus botões - a minha posição diante do problema dela me permite rir e morrer tranqüilo, talvez uma pequena indagação moral apareça no momento derradeiro, mas tenho certeza que não seria essa minha última visão expirada em vida. Nem devia falar assim, mas ah, tadinha dela, procurava uma responsabilidade e logo o que ela foi encontrar.
Volteando o mesmo assunto, mas sob diferentes aspectos, disse uma outra querida amiga minha: "pois é......eu costumava falar que eu queria encontrar o motivo pelo qual levantar de manhã e hj eu falo q o motivo pra eu levantar é pra arranjar um motivo...". Como escapar da eterna busca por motivos, por razões, sentidos? Não dá! Coisa feia, né? Ficar nesse jogo de pergunta e resposta... É meio inevitável, passo tanto tempo comigo mesmo que começo a pensar dessa forma, entrevistando-me. Não que minhas respostas valham de alguma coisa em um raciocíonio que deveria buscar respostas objetivas e verdadeiras, elas apenas me entretêm, tornam mais amena essa balbúrdia em que vivo. Da mesma forma me parecem as coisas práticas da vida quando penso nos seus porquês; quando me perco no meio do dia pensando sobre as coisas que faço, elas se tornam uma distração, um entretenimento com o qual tento me distrair, com o qual tento voltar a fazer as coisas sem as pensar, embora apenas entenda isso quando as penso. Ironias à parte, é quando as percebo assim, como distrações, que mais difíceis elas se tornam, depois que as pensei e a seus sentidos, motivos, razões, é que não consigo mais fazê-las sem aquele gosto de "aspartame" (leia-se adoçante). Pensar as coisas que devemos fazer apenas as tornam mais insuportáveis. Então (como ensinam as professoras secundaristas de português para as dissertações) vou tentar parar de pensar e lembrar sempre: TPP! Tente Parar de Pensar e FAÇA!!! Pois bem, já está tarde, mas como tenho que parar de pensar e fazer um pouco pra variar, vou ler o que deveria ter lido e estou aqui prorrogando. Das máximas que me ocorrem nos momentos oportunos: nem tudo é orgasmo pra gente ficar segurando! E tenho dito!
Por RGM às 01:27
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Terça-feira, Junho 29, 2004
Das cinzas
Como já dizia a história da fénix, só não contaram que ela alçou vôo para se espatifar numa janela de vidro, para dar de cara numa ilusória liberdade. É, ninguém conta essa parte das histórias. Felizes para sempre? Não, a gente logo aprende que isso não existe, logo aprende que o único sentido de levantar é cair novamente e que qualquer tentativa contrária é pura enganação. Digo isso na minha mais rude maneira, sem escolher adjetivos, sem procurar um texto belo, agradável; digo isso para soar ruim, para cair em um baque surdo e morto. A vida é um corpo morto que tomba no escuro. Dito isto, não digo mais nada.
Do resto, sim. Digo: viva às drogas e às companhias farmacêuticas. Que nunca me faltem supositórios existenciais, essas coisas incômodas que enfio no rabo para achar que o resto que me impingem não é tão ruim. Enfim, não tenho mais nada a dizer; retornei do fundo das minhas depressões e mesmo eu sei que elas não existem, sei que nem mesmo as soluções existem, por isso não tenho nada a dizer. Porque se nem isso, ou aquilo, então mais nada do que imaginava sentir pode existir. Ilusões, delírios absurdos que construo sobre uma realidade cinza, tentativas vãs de colorir o que não consigo suportar. Para quê? Talvez para estender por linhas e linhas uma inadequação estúpida que adquiri nessa vida; talvez porque não saiba se sou excepcional e quero ser medíocre, ou se sou medíocre e quero ser excepcional. Dilema: somos todos únicos e ainda assim uma mesma massa disforme e inexpressiva. Tudo bem, eu paro com essas divagações inúteis, afinal, dessa massa disforme, somos todos únicos tentando nos distinguirmos uns dos outros, sem sucesso.
Por RGM às 16:13
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Sábado, Junho 12, 2004
Para onde vamos agora?
Pergunta normal, diria que plenamente casual, não tivesse sido feita por um estranho na poltrona ao lado da minha no ônibus, após desculpar-se em uma maneira quase exagerada por me interromper; eu ouvia música em distantes e apáticos fones de ouvido com a paisagem urbana. Voltava para casa, um daqueles dias em que não se sabe extamente onde está, mas se pode sentir aquele apelo de para onde vamos, e para onde eu ia era casa, aquele retorno que é mais ideal do que uma viagem. A pergunta toda foi quase isto: "Desculpe-me, eu não queria interromper a sua música, mas para onde vamos agora?" Primeiro eu respondi o inevitável, afinal o ônibus era um semi-direto com apenas duas paradas, a do meio e a do final, porém, depois, ao recolocar aqueles pedacinhos de música de volta aos meus ouvidos, senti-me resgatado daquela apaticidade das paisagens urbanas. Escorri lentamente com as cores que se deformam pela velocidade da viagem, sentindo que não ia, mas sim que ficava aos poucos pelo caminho, enquanto a pergunta inexplicável continuava latejando entre os fones e meus ouvidos, "para onde vamos agora?" Não dei bola pros risos mentais que logo me ocorreram, não interessava se o cara estava bêbado, perdido ou, o que era pior, passando uma cantada no carona de ônibus dele; não, pouco interessava esses detalhes mundanos das regras bestas que regem nosso contato com estranhos. Interessava que aquele dia em particular era um dia em que eu ia para um lugar, mas não sabia realmente para onde. Interessava que aquela pergunta nem mesmo eu poderia ter repetido com aquela entonação, com aqueles detalhes absurdos dos meus próprios sentimentos. A frase toda foi tão minha que o pobre sujeito desapareceu assim que a pronunciou, tudo o que continha aquela primeira pessoa do plural eram as minhas próprias esperanças desfeitas, a minha própria insegurança do que fazer, de para onde ir ou como continuar.
A semana tinha sido difícil, decepcionante. Corri para pegar aquele ônibus e ir para uma casa que eu já sabia vazia, mas e já não era de outra assim que eu me vinha? Era, não fosse pela voz, por esse som distinto que meus próprios pensamentos ocupam. Essa cacofonia leva dias, semanas, às vezes até mesmo meses, para se organizar, para tocarem todos os pequenos sons em harmonia; e agora eu sei para onde vamos, para onde vão meus pensamentos e devaneios. É quando as palavras me vêm, quando o que eu ouço é um diálogo com outro que não eu, que eu entendo o que passei semanas repetindo e somente um estranho pôde traduzir em palavras. Ainda assim, se tivesse que repetir, apenas conseguiria repetir a pergunta dele, vazia e estranha, deslocada de todo contexto dos meus sentimentos e do que poderia perguntar uma pessoa à outra; se eu fosse dizer, diria de forma mais incompreensível ainda e somente para aquele que me fez aquela pergunta, naquele momento. Diria: para onde vamos agora? E ficaria grato pela cara de espanto daquele meu ego caricaturizado em terno e gravata. Ele não precisaria responder, é claro. Eu já tinha feito isso, a dúvida seria nossa, seria a minha dúvida sobre todos os destinos à frente da única certeza: nunca me farei entender como queria.
Por RGM às 23:50
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Sábado, Maio 29, 2004
Lá
Naquele lugar mais alto
Onde pretende o cinza o anonimato
Das paredes duras, única face
Desfalece o vidro, desfalece o branco
Esvai-se o grito
Em um grunhido brando
Mastigado pó urbano
Entre passos gravitacionais
O elã de que é tricotada a vida
É impulso e queda
E nada mais.
Por RGM às 02:03
Bem, segundo as mais recentes estatísticas, ninguém está lendo estas merdas que eu escrevo. Das duas, uma, ou esse ninguém começa a comentar, ou acabarei fazendo isso por ele. Não que isso seja ruim, tudo bem que é meio estranho, mas nas horas mais inúteis, aquelas em que se terminou mais uma caneca de café e algum "ésimo" cigarro; quando de tanto mirar o tênis na tv pra desligar a maldita (é, não tenho controle sobre isso também) se acabou acertando o copo que ficou ao lado dela não se sabe de quando (nem quanto mais os cacos vão ficar no cantinho); quando o pensamento já ficou empapuçado de tanto distinguir as letras de sei lá qual leitura e não se sabe se isso está nos olhos que foram secando depois de uma noite inteira acordado ou na maldita consciência que não se rende ao sono; em um momento desses, às vezes, pois de reclusão chega a que eu me imponho, arrisco-me a falar sozinho. Na verdade, falar sozinho é muito chato, então acabo respondendo, tirando sarro da minha própria cara, quer dizer, das minhas próprias imbecilidades e errinhos grotescos que ninguém mais poderia ter a sensibilidade de notar ou tomar a liberdade de me atazanar. Pois é, eu acabo implicando comigo mesmo. Mas já me disseram que os melhores relacionamentos são feitos de pequeninos atritos carinhosos - leia-se: percepções aguçadas da verdadeira realidade estúpida que faz com que duas pessoas, ainda mais estúpidas, aturem umas às outras e encontrem nos seus defeitos a melhor forma de contato diante de diálogos desgastados e assuntos chatos; nesse caso, ou eu me caso de uma vez, ou peço divórcio, mas quero só ver eu me mandar embora de casa. É, meu relacionamento está em crise hehehehehehehehehe
Por RGM às 02:01
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Quarta-feira, Maio 26, 2004
Como folhas, algumas secas , algumas ainda tenras, voando sobre a grama, pulando, dando cambalhotas e fazendo graça, são as vidas que vêm e vão nessas pradarias de concreto que chamamos casa. E, como as folhas, todas elas caíram de alguma árvore, alçaram vôo e, em algum momento glorioso, encontrarão o que lhes prenda ao chão. O sentido de terem nascido verdes e no topo do mundo, de terem ficado secas e leves, de terem alçado longo vôo ou se precipitado em uma queda abrupta, ao contrário do que esperam aquelas que estudam suas linhagens e classificam o mundo, daquelas que estudam os pulos e vôos para extrair-lhes tão somente ângulos e vetores, é simples, é quase estúpido, não fosse a estupidez uma exclusividade delas; o sentido das folhas que voam é encontrar o seu repouso para, em um esplendor mórbido, apodrecerem, dando de si o que negavam ser sua essência, o substrato de que se alimenta o resto do mundo, a vida que gera mais vida e nada é além de um impulso para a morte seguinte.
Por RGM às 12:52
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Terça-feira, Maio 25, 2004
Eu sei que vou me arrepender profundamente, mas ainda assim, consciente das coisas que devo e não devo, mas em dúvida das coisas que posso ou não posso, não farei nada do que acho que devo, mas não sei se posso. Inclusive o que vai me trazer dias e dias de um remorso incômodo, um sentimento que é como um espinho na palma da mão, está lá, mas só dói quando vamos pegar o que queremos.
Por RGM às 16:03
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Domingo, Maio 23, 2004
Sentindo-se solitário?
Não faz mal, ela também.
Por RGM às 21:23
Rápidas & Rasteiras
-Tirar a barba no inverno é como levar um tapa na cara do frio.
-Se em um dia esqueço uma boa frase, em mais um já esqueço que a tive.
-Refletir banalidades é uma masturbação intelectual, mas pensar também precisa de treino.
(não q alguma dessas seja inteiramente minha, apenas me ocorreram nos momentos apropriados)
Do que não é tão rápido, mas sorrateiro.
-Em um mundo de definições velozes e arbitrárias, onde, cada vez mais jovens, sabem as pessoas o que fazer, o que desejar e o que aprimorar, menos eu posso definir qualquer coisa, senão a absurda indefinição com que inauguro e encerro um dia após o outro.
-Não me identifico com o todo porque não o contenho e tampouco ele pode conter-me, mas agrada-me não me perceber de um todo só.
-Depois de um poema ruim é improvável se seguir um pior, mas o receio de consegui-lo deixa a folha seguinte em branco por um tempo que o anterior não merecia.
Por RGM às 21:10
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Terça-feira, Maio 18, 2004
Assisti o filme As Invasões Bárbaras, ponto.
Não, hoje eu não quero estudar, não quero ler, talvez nem mesmo escrever, mas o faço porque é o que me resta. Em algum momento dessa tarde fria que passou, olhei a luz que se esgueirava por entre as folhas até o chão e parei. Tentei saber se estava triste e não soube, havia uma certa serenidade indecifrável; estava lúcido e, ainda assim, anestesiado. Dos meus últimos dias, desses sim, eu sei.
Escondi-me a todo custo, revoltei-me eufórico contra o que não me oprimia. Inflei meus pulmões a suspiros de escárnio e os comprimi para expelir o que em verdade era eu mesmo. Não, não há mal suficiente no mundo que explique a minha revolta, senão eu mesmo. Mas agora que o sei, não me conforta sabê-lo.
Tenho cumprido minhas tarefas, meus deveres, tenho satisfeito meu intelecto, meu ego acadêmico, porém, isso não não me faz feliz, apenas me permite a tranqüilidade de uns derradeiros momentos. Como um prisioneiro que redimido de uma das culpas continua preso por outras, e para culpar-me, basta que nada faça, basta insistir algumas horas a mais em um sonho de conforto. Das outras culpas, sequer nada fazer eu precisei, apenas soube que a mim se imputavam e não as pude negar.
Contrariando o que às vezes digo, tenho falado menos, tenho me sentido incomodado na companhia de outras pessoas. Sinto-me só, mas procuro minha própria solidão; não é propriamente uma inadequação, é mais um desconforto ansioso. Esconder-me aqui é acusá-los, mas bem sei que não lhes cabem as minhas culpas. Nada lhes compete se não o que, como eu das minhas, sabem das suas.
Meus derradeiros momentos aqui se derramam, enquanto caminho, depois que me sento, enquanto não durmo, enquanto sozinho. Como uma paralisia que se espalha pelo corpo e chega-me à alma, perco-me entre o que penso e o que me cerca, caio de cima da idéia no abismo entre o que sou e o que é, caio no abismo que em verdade sou eu. Talvez há muito me tenha jogado e quando me vejo, vejo-me caindo, ou nem isso, suponho a queda de um corpo no escuro que não mo permite saber se ele cai.
Eu sei que é um chavão, mas gostaria de ver um sentido na vida, como algumas pessoas me parece que vêem, elas crêem. Eu não creio, por isso não vejo, ou talvez tenha visto e creia mais piamente que seus credos são a medida do que necessitam. De qualquer forma, a vida para mim é um cão perseguindo seu rabo, sem alcançá-lo, morremos tentando. Vestimo-nos de falsas certezas que nos asseguram essa busca, mas perecemos aos poucos, cada vez mais inseguros, ao vermos as certezas se acabarem antes de nós mesmos. Por fim, a última delas desaparece conosco e já não sabemos se existimos ou não.
Da tristeza dos últimos dias? Sim, tive-os sombrios; lânguidos cães prostraram-se desinteressados. Enganei-me enquanto pude, mas o azar me pariu esperto, agora enfrento-a como posso, como um soldado de chumbo trespassado por flechas que um garoto malvado não devolve à sua caixa. Cumpro minhas tarefas, as que não toleram compulsões também, do contrário, voltaria à minha analgesia diária; não me fazia feliz, mas não me deixava sentir-me. Entretanto, joguei-me aos meus próprios pesadelos, escolhi o que me exige a sanidade e mais me confronta à realidade, escolhi pensar-me e à minha vida. Agora, condenado a descobrir por que persigo meu rabo, mais distante me parece qualquer forma de felicidade.
Ainda me rsta um sonho, ao menos um. O ideal momento de paz, um instante de plenitude quando ser feliz fosse inquestionável. Em um mundo onde nada mais existisse, um vale entre montanhas nevadas lentamente se estendia em um aclive ao poente. De uma densa floresta com árvores seculares, o vale se transformava em um capinzal macio, em um campo de flores e então numa grama tenra e verdejante, espremendo-se cada vez mais entre as escarpas inacessíveis. Finalmente, o vale se debruçava sobre um penhasco monumental onde, lá embaixo, ondas gordas de um mar azul profundo se atiravam contra as pedras. Ali, em uma das árvores, deitado sobre o capim, correndo entre as flores e sobre o tapete de gramíneas, sentado à beira do penhasco para ver o pôr-do-sol, talvez, por um instante, eu me sentisse pleno, em paz e feliz. Só não me mostrem um lugar assim, pois para sobreviver é necessário ao menos um sonho.
Por RGM às 12:50
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Sexta-feira, Maio 14, 2004
Suspenso
No ar preso de um suspiro ansioso.
Vento de anseio por vida
Que não sopra, não se renova,
Instante vivo que se acaba.
Eu inspiro e me morre no peito,
No colo de pedra que chamam amparo,
O que não há de ser livre, mas preso,
Ar rarefeito, mas pujante de erros,
Ar viciado, fumaça engolida.
Ácido,
É o pensamento que me vem às golfadas,
Como revolta à passividade
De um jugo que'u sofro e calo.
Meu vômito é seco, poeirento,
Agarra-se à minha voz,
Até que rouco
É expelido em um grito.
Respiro e,
À cada vez um tanto mais,
Insinua-se ao peito
Mais um suspiro.
Por RGM às 18:43
Nem sempre tenho certeza, mas algumas pequenas coisas me provam mais humano do que qualquer um. Não que em outros momentos eu me considere extra-humano, ou um supra-humano, seria demasiada pretensão da minha parte excluir-me do planeta e, conseqüentemente, excluir de mim mesmo os meus clássicos defeitos, exclusivos da minha linha de série e do modelo contemporâneo que habita nosso pobre planetinha.
A pequena coisa, nem tão pequena assim, é uma incrível capacidade de falar asneiras, despejar "pré-conceitos" (entenda bem, preconceito não é necessariamente uma discriminação, mas um conceito pré formado e sem fundamentação) geralmente adormecidos e já descartados, mas que por algum maldito motivo continuam no sistema central; enfim, falo demais. Não é difícil de perceber, não é? Afora o fato de que quando escrevo não me ocorrem esses "bugs" detestáveis, quando converso, principalmente quando fico nervoso, desfio uma novena inteira deles. Não os penso, não os considero verdadeiros, na verdade, tenho absoluto pavor desses monstrinhos escondidos entre meus pensamentos, mas quando preciso encher lacunas de uma conversa, enriquecer um diálogo, são os primeiros a pular na fila. Normalmente eles ficam retidos na garganta e já os coloco na lixeira, já os elimino definitivamente do pensamento, mas alguns são tão persistentes que voltam. Aliás, não apenas voltam a se esconder entre meus pensamentos como, se me descuidar, pulam direto pra fora da boca, aí o estrago está feito.
A situação obviamente piora quando, em um acesso de insegurança, aquela coisa de menino que precisa impressionar, deparo-me com uma linda mulher de excepcional inteligência. Ai, daí o bicho pega, quer dizer, os monstrinhos me pegam, vêm todos pra boca. Pior ainda fica quando os percebo, prontos para pular pra fora, piores que grão de arroz do almoço, eles se acumulam um sobre o outro, forçando a saída. Vem a dúvida: calo a boca ou arrisco cuspir um deles? Como eu quero impressionar, calar a boca está fora de questão, nada me resta além de arriscar minhas chances e, na melhor das hipóteses, demonstrar timidamente algum nervosismo - insegurança não porque é broxante ao extremo - e deixar preparada alguma saída, alguma desculpa para quando o primeiro deles pular. Infelizmente nem todos são remediáveis.
Acho que hoje uns quantos não foram, não faço idéia do estrago que possam ter causado, mas, com alguma sorte, um dia os explico devidamente. Espero. Enquanto isso, vou me convencendo de que possa ser notado, esse detestável defeito, como um sinal de afeição, talvez até, da maneira mais piedosa, chamado de "meiguice", por quem não deveria, pra começo de conversa, ter tentado impressionar.
Por RGM às 18:34
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Quinta-feira, Maio 13, 2004
Algumas coisas banais e outras nem tanto. (parte2)
Sem a perspectiva sórdida de um voyeur, ocupei-me em observar discretamente. Tudo bem, tive alguns suspiros pelos casais mais ternos, como aqueles inevitáveis aos melhores pares românticos cinematográficos, porém, o interesse se tornou aos poucos quase científico - típico dos solteiros que procuram relativizar sua solidão. Provavelmente eu procurava os motivos da minha própria incompatibilidade, claro que não os encontrei ali, entre os espécimes compatíveis. Afastei-me um pouco e retornei a mim mesmo. Quando procuramos companhia, fazemo-lo por que desejamos conhecer alguém, ou desejamos conhecer alguém por que é uma pessoa, à princípio, interessante e boa companhia? De fato, não desejo conhecer ninguém, é uma questão de suficiência: procuro em mim mesmo e naquilo que posso as coisas que me faltam. Afora isso, sim, quero conhecer as pessoas que me parecem interessantes, como algo que não vem a completar-me, mas somar sobre tudo o que já sou.
Talvez pela velocidade e facilidade dos relacionamentos modernos esteja ocorrendo uma inversão de valores: pessoas vazias e incompletas que buscam conhecer qualquer um que preencha as suas lacunas existenciais. Talvez seja exatamente o contrário e a facilidade e velocidade com que se dão os relacionamentos seja o reflexo dessas pessoas. De qualquer forma, é claro que nada se apresenta a elas dessa maneira; pergunta-lhes e te responderão que são pessoas independentes e donas delas mesmas, mas agem como marionetes de um exemplo freudiano. Em verdade, é mais fácil acasalar um homem e uma mulher desse tipo que a um casal de gorilas. Curioso, não é?
O que me leva a uma nova especulação: quanto mais repleta de superficialidades a pessoa é, tanto mais simples é a sua compatibilidade. Afinal, parece-me que quanto mais apegada às coisas fúteis que a vida nos oferece, maior é a sua lacuna interior, também dita desamparo, e, uma vez que as banalidades de dois não entrem em conflito - ela só quer restaurantes à la carte e ele cachorro quente de futebol - preencher o vazio alheio é conseqüência da necessidade de ambos. Obviamente, a maioria percebe que enfiou um quadrado em um buraco redondo, mas como a noite está cheia de possibilidades não é problema acabar amigavelmente, ambos precisam se apressar em satisfazer as suas carências.
Sinceramente, pode até ser impossível ser feliz sozinho, mas ser infeliz acompanhado - no meu caso, que fique claro - é pior, possível e quase inevitável, dadas as alternativas que caminham por aí.
Todavia, eu mesmo disse, é tudo especulação. Não é uma análise que abrange todas as variáveis e possiblidades, ao contrário, atiro no escuro de olhos fechados. Gasto tinta e papel além do tempo que já tinha gasto - e do que gasto agora -, mas por algum motivo estúpido eu gosto disso, talvez até mais do que me atirar em relacionamentos fugazes, afinal, de fugaz, por estes dias, basto eu.
Por RGM às 12:29
Algumas coisas banais e outras nem tanto. (parte 1)
Ontem eu não tive um dia fugaz, mas o fui das maneiras mais espantosas; fui tantos que já nem sei quem sou agora. Meu humor mudou mais que o de uma garota nas primeiras tpm's - sei que soou estranho, mas não me crucifiquem. Claro que não sou dado a expressões públicas de emotividade, aliás, corro o risco de ser julgado insensível, mas não é, apenas sinto demais e, quando o faço, calo. Sou "aquele que foge ou passa rapidamente","o que é transitório, efêmero", segundo o tio Luft. Meu dia, ao contrário, foi pesado, arrastei-o à contra-gosto; foi uma saca de algodão que eu ensopei de pensamentos. Foi um dia tão longo que merece um diário, um registro póstumo dos pensamentos na saca.
Das banalidades:
- Odeio tanto o novo Nescafé Original (por que original se o próprio rótulo diz que é novo?) que troquei de marca;
- Ao invés de livros, as revoluções deveriam queimar as cadeiras "anatômicas" das salas de aula;
- Algumas pessoas precisam aprender que o limite entre bancos de um ônibus é mais crítico do que a fronteira das Coréias;
- Falar bagaceirices apenas é engraçado no começo, depois fica maçante e insuportável, principalmente ter que as ouvir;
- Pessoas quietas, em visível introspecção, não querem companhia. Não puxe cadeiras nem conversa, desapareça depois da saudação.
Enfim, todos dias têm sua cota de distrações, houveram mais, porém já não me lembro do resto. Mais expressivo foi o que veio ao fitar o espaço, ao abandonar-me em mudas conjecturas sobre as relações dos gêneros - só pra variar. Muito longe da banalização de um relacionamento ao simples ato sexual, onde o físico pouco importa e o que se busca é um ideal, observei a variedade sazonal dos encontros humanos. Explico: parece-me que às vésperas dos dias frios, sob o ambiente terno que o outono propicia, contrariando a natureza primaveril, mais casais se encontram, mais pares se enlaçam. Na prática é algo até mesmo óbvio, não devo ser o único a perceber tal fenômeno, mas a explicação não o é. Não acharam que eu iria responder à questão, não é? Por que não vou.
Por RGM às 11:56
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Terça-feira, Maio 11, 2004
"Que coisa não?" Tem frase mais insuportável do que essa? Geralmente cuspida após um desabafo sério por quem imaginávamos ser o ouvinte ideal, ou ao menos o que pudemos encontrar para tanto, e não era. Na verdade, quem profere uma frase dessas ou não ouviu, ou não se importou, das duas uma e nenhuma outra. Ouvir algo assim é pior do que um "e daí?", ela é sinuosa, é uma afirmação debochada de tudo que importava e foi compartilhado. Há, claro, aqueles que bem merecem ouvir essa e muitas outras sentenças sarcárticas, aqueles que não conversam, mas sempre nos descarregam todo o seu terço de penúrias; aqueles que vivem verdadeiras tragédias diárias apenas pelo prazer de contar pra alguém, como um tipo de fofoca delas mesmas. Falta de atenção na infância seria meu melhor diagnóstico, mas não me arrisco, tem maluco de todo jeito e para todos os gostos. Aliás, tem alguém a procura de um?
Post meio sem assunto esse, na verdade, totalmente sem assunto. Catei a idéia ao acaso e não foi ao acaso que ela murchou. Há idéias que não têm força, são um tipo de treino retórico, essa pelo visto é mais uma. Enfim, só escrevi essa merd... porque achei que devia escrever algo. Por que devia escrever não sei, nem muita vontade surgiu, do contrário, até mesmo uma idéia órfã viraria celebridade. Não foi o caso, agora eu estendo ainda algumas linhas essa penúria que sequer deveria ter começado. É para aprender: as coisas vêm quando vêm. O que é natural do espírito, o que é criatividade, não pode ser forçado. O resultado? É isto.
Por RGM às 13:06
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Sexta-feira, Maio 07, 2004
Porque eu continuo fazendo as coisas às avessas...
Por RGM às 23:44
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Sábado, Maio 01, 2004
Onde termina o sorriso?
O riso? Rarefeito em rosto feio...
Frio feitio do riso desfeito.
Retumbando profundo, grave som,
Mas só imagem, quebrado mosaico
Daquilo que ria. Não ri mais.
Verso após verso, um suspiro
Sem ar, sem rimas, não faz
Um poema a rir-se de amar.
Por RGM às 13:45
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Quarta-feira, Abril 28, 2004
Hoje? Bem, das inesperadas ocasiões da qual a expectativa não ousa livra-se e nem tão pouco encerrar em ato, consumou-se exatamente como mandam os livrinhos de auto-ajuda dos relacionamentos entre gêneros. O que ouve? Em um primeiro momento, a reflexão de um poema, ou talvez seu próprio reflexo, largado à toa na noite anterior, nos exemplos que a rotina insiste em me esconder para, somente então, entregar em apenas um dia o que seria a solução das minhas perguntas mais freqüentes. De um lado a expectativa de mútuo interesse se realizou nos detalhes particulares de uma conversa que não possui objetivo, senão o tempo da companhia e próprio ato de conversar; detalhes que os mesmos livrinhos cansam de exemplificar e que qualquer bom observador já captou. Pelo outro, o tipo de encontro desafiador, seguindo-se ao diálogo referido, nos moldes do absoluto e ingrato acaso que nada pretende além da nossa reflexão; esbarrei no meu objetivo vaidoso, os exemplares de rara beleza feminina que tanto intrigam minha razão, pois, como toda beleza natural (ou até onde uma pessoa consegue ser natural atualmente) o entendimento humano não alcança ou mede qualquer grau de qualidade, apenas identifica, como lembrasse a visão de anjos (no caso ninfas) sexuados.
Até então já obtera material suficiente para continuar discorrendo de inúmeras maneiras, temas para mil poemas, mas, como disse, a rotina me esconde os exemplos para entregá-los de uma só vez. Primeiros passos adentrando o campus, com o esperado (era mesmo?) e o acaso degladiando-se em minha mente, mal acendera meu cigarro necessário e cruzo o caminho de um acaso muito mais antigo e quase que esquecido sob os montes de materiais inúteis de que a razão se livra no fim do dia. O inesperado? Dessa vez sim, completa e deliciosamente, recebo um sorriso gratuíto. Como ou por quê não saberia com exatidão, afinal, de quem nem nome, nem nada, eu sei, o mesmo é o que posso elaborar; porém, vai virar poema, vai repercutir nos meus pensamentos e alegrar algumas partes pálidas do meu dia. Na verdade, já o fez, alegrar-me e até mesmo impedir que me zangasse com uma professora vingativa e metida a besta que resolveu implicar com a baixa frequência de sua aula medíocre aplicando uma avaliação surpresa. Sim, eu fui irônico em alguns momentos e até mesmo excedi meus direitos de aluno, mas respirei fundo e subitamente brilhou o sorriso entre meus pensamentos. Levantei-me e saí, aqui estou, posso dizer que aliviado por ter calado no momento certo e somente agora ter desenvolvido tudo o que não passaria de grunhidos, caso discutisse com aquela professorazinha, que nada dessa bela realidade receberia e jamais compreenderia o que de fato representa este dia para mim, no seu conjunto, na sua expectativa, acaso e inesperada solucão pacífica.
Vai o poema, sem título, pois não acordamos dando nomes aos dias.
Eu sou expectativa.
Sou a lembrança boa e a ruim,
A lembrança distante e desnuda.
Eu sou o arrependimento
E deste, a chance fugitiva.
Eu sou a incógnita repugnante
E a certeza desperdiçada.
O que me querem que seja
Sem nunca verdadeiramente sê-lo.
Pois que seja o necessário
Esse estranho que desconheço,
O que nunca fui, nunca bastei,
Mas agora o é e servem-se dele.
Esse eu abstrato que,
Tão logo é visto, esvai-se
Do meu sentido para ser
O espelho das ânsias,
Do medo expresso em desejo
Dos espíritos que vagam alheios.
Por RGM às 15:30
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Segunda-feira, Abril 26, 2004
Eu são sou muito de postar letras inteiras de música, mas para essa vale a exceção. Tenho ouvido dia e noite novamente; fazia um tempo que não estava no meu player, nos meus fones, na minha cabeça. A letra é extraordinária, vou tentar uma tradução breve (perdoem meus erros).
AVALANCHE
(from the album 'SONGS OF LOVE AND HATE')
LEONARD COHEN
Well I stepped into an avalanche, - Bem, eu caminhei para uma avalanche,
it covered up my soul; - Ela cobriu minha alma;
when I am not this hunchback that you see, - Quando eu não sou este corcunda que tu vês,
I sleep beneath the golden hill. - Eu durmo sob a montanha dourada.
You who wish to conquer pain, - Tu, que desejas conquistar a dor,
you must learn, learn to serve me well. - Tu precisas aprender, aprender a me servir bem.
You strike my side by accident - Tu me acertas acidentalmente
as you go down for your gold. - Enquanto vai atrás do teu ouro.
The cripple here that you clothe and feed - O aleijado aqui que tu vestes e alimenta
is neither starved nor cold; - Não está nem faminto ou com frio;
he does not ask for your company, - Ele não chama pela tua companhia,
not at the centre, the centre of the world. - Não no centro, no centro do mundo.
When I am on a pedestal, - Quando eu estou em um pedestal,
you did not raise me there. - Tu não me colocastes lá.
Your laws do not compel me - Tuas leis não me compelem
to kneel grotesque and bare. - A ajoelhar-me grotesco e nu.
I myself am the pedestal - Eu mesmo sou o pedestal
for this ugly hump at which you stare. - Para esta feia corcunda que tu fitas.
You who wish to conquer pain, - Tu, que desejas conquistar a dor,
you must learn what makes me kind; - Tu precisas aprender o que me faz amável;
the crumbs of love that you offer me, - As migalhas de amor que tu me ofereces,
they're the crumbs I've left behind. - Elas são as migalhas que eu dexei para trás.
Your pain is no credential here, - Tua dor não é nenhuma credencial aqui,
it's just the shadow, shadow of my wound. - É apenas a sombra, a sombra da minha ferida.
I have begun to long for you, - Eu tenho começado a sentir saudades de ti,
I who have no greed; - Eu, que não tenho nenhum egoísmo;
I have begun to ask for you, - Eu tenho começado a chamar por ti,
I who have no need. - Eu, que não tenho nenhuma necessidade.
You say you've gone away from me, - Tu dizes que foi para longe de mim,
but I can feel you when you breathe. - Mas eu posso te sentir quando tu respiras.
Do not dress in those rags for me, - Não te vistas com aqueles trapos para mim,
I know you are not poor; - Eu sei que tu não és pobre;
you don't love me quite so fiercely now - Tu não me amas com tanta força agora
when you know that you are not sure, - Quando sabes que não tens certeza,
it is your turn, beloved, - É tua vez agora, amada,
it is your flesh that I wear. - É a tua carne que eu visto. (?trago?)
Obviamente a música é um poema excepcional, logo, muito eu tentei dar o sentido correto no nosso português, sem, no entanto, alterar a letra demasiadamente. Como no último verso, onde até acho que ficaria muito melhor: "Eu estou na tua pele". Mas na tentativa de não influenciar demais a interpretação alheia, fica como coloquei, uma tradução "meio ao pé-da-letra". Bem, era isso. Até que me tomou muito mais tempo do que esperava, pois apesar de conhecer toda a letra e saber seu significado, ou entendê-la, traduzi-la é muito mais complicado.
Por RGM às 02:57
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Domingo, Abril 25, 2004
Dos meus poemas interrompidos.
Quão suficiente é o que sinto
Para mover-me e à meu lápis
Àquilo que em nada é idéia,
Mas sou eu em todo a sentir arte?
(...)
Como falar de arte? Como sentir arte? Sei que quando comecei queria falar de amor, só pra variar, mas virou arte. Talvez a arte de amar, talvez... Será que é a maneira como nos fazemos amados? Acho que sim, pois se a expressão do espírito, das suas ânsias, alegrias e todo o resto, é arte, expressar amor fazendo o outro sentir-se mais amado do que nós próprios nos sentimos há de ser arte - afinal, o amor é uma das maiores ânsias do espírito e igual alegria. Pode também que expressar tanto amor nada seja além de uma obsessão, daquelas que assusta, espanta e manda pra longe quem tanto bem queremos. É, também pode ser. Pode ser tudo, na verdade, arte, obsessão, perversão de um sentimento puro por tudo o que carregamos dos nossos erros e decepções, e, no final, ser tudo menos amor.
Os seres que caminham sob o Sol, dia após dia, que cruzamos nas ruas, nos corredores de ônibus, nas portas das salas de cinema, não suportam qualquer pergunta. Acho que Pessoa escreveu algo como: Ama com todo o teu ser, o mais é nada. Podia procurar pra confirmar a citação e a fonte, mas estou com sono demais até pra continuar este post estranho. Mas, se foi isso que ele escreveu de fato, é obra da sua costumeira genialidade, pois amar não permite mais nada, há de sentir e viver o sentimento sem perguntas, sem questões existenciais. O mais é nada, porque se não o for o relacionamento sucumbe, o sentimento perde a cor e vira algo que vemos todo dia: uma chance de amar que caminha embora em sentido contrário ao nosso. Quando amar novamente, ou pelo menos achar que amo, não vou me perguntar se o faço de fato, tampouco perguntar à pessoa, vou ficar quieto e viver da melhor maneira possível enquanto durar, afinal, além disso, todo o mais, sempre será nada.
Por RGM às 02:20
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Quinta-feira, Abril 22, 2004
Só para constar: não aguento mais receber o netsky!!!!! FsDP que estão propagando esse vírus infeliz pela internet. Todo dia recebo mail com ele, mas meu anti-vírus pega. Empresas essas que estão dando risada, as fabricantes de anti-vírus, nunca venderam tanto como ultimamente. Então, hackers - ou pseudo hackers, pois acredito que um verdadeiro tem mais a fazer do que ficar passando vírus por e-mail, como invadir o computador da receita e bagunçar as contas do governo, não que isso seja uma apologia, mas é algo que daria risada se conseguissem - cresçam, tirem suas bundas gordas e cheias de espinhas da frente do pc e vão fazer algo que preste, como ler alguma daquelas bíblias da programação, fazer um programa freeware que preste ou qualquer outra coisa que não apurrinhar a paciência de quem só quer chegar em casa e ler seus e-mails, seus FsDP!!!!!
Por RGM às 12:43
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Quarta-feira, Abril 21, 2004
Que coisa não... as imagens que a gente colhe durante um dia. Ontem vi uma borboleta pousada em cima de um hidrante antes de ir pra facul, quando voltei à noite vi um menino que deveria ter uns 4 ou 5 anos - difícil de saber se não era mais velho e sofria de subnutrição - encostado no carro de recolher papel do pai dele. Foda é que não era um simples "encostar", sabem quando paramos e encostamos a cabeça em algo, braços próximos ao corpo em uma sensação de cansaço extremo? Ele tinha as mãos seguras nas grades do carrinho e não se mexeu. Eu passei, pensei em parar, fiquei com medo de ser mal interpretado - sei lá né, esse mundo tá doido demais, vai saber - não parei e ficou a vontade de ter registrado a imagem. Não que fosse pela premiação, mas bem batida a foto valia prêmio; foi ao lado da borges, antes do viaduto da perimetral, naquela ruazinha de calçamento que não dá pra entender pq existe (tipo um desvio) sentido centro-bairro; como já era escuro, a luz dos postes passava entre a copa das árvores dali e se misturava com a luz do prédio e de uma banca de jornal próxima. É por essas e outras que tenho vontade de carregar uma câmera comigo, mas se já temo pelo meu discplayer e celular, pior ainda seria carregar uma digital. É, o mundo de hoje não permite pararmos por muito tempo nas ruas para admirar algo, ou se é atropelado ou assaltado. Por mais triste que sejam as ruas urbanas ainda há uma beleza artística que deveria ser percebida, não sei quantos o fazem, mas eu ainda consigo, espero não mudar jamais.
Por RGM às 00:40
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Segunda-feira, Abril 19, 2004
Era pra entrar um outro texto, bem mais desabafo pós-moderno, junto, porém a ufrgs é sempre essa mesma complicação pra usar os pcs: se não falta luz e perco tudo, chega uma professora avisando que o laboratório vai ser fechado para a aula dela. Como muita coisa na minha vida, fica pra amanhã.
Por RGM às 16:01
Poemas... sem títulos.
Não, tua palavra nada traz,
Não rende ou me desarma.
Faz, mas não me fales, cala
Ou te vá e nunca voltes.
Mate-me e me espalhe
E nunca diga quais lugares.
Esta é a minha manhã,
A minha casa e meu retorno.
Sou parte do que retorna ao nada,
Mas recomeça e nunca acaba.
Sou a razão em que resvala o louco,
E o amor que tem a morte à vida.
Princesa, se não fores forte,
Não venha chorar dos versos do bobo.
Não deixe o aconchêgo das torres,
Reinos e cavernas com sombras.
Aqui eu te vejo sofrer e envelhecer,
Possuir-me e a todos os meus.
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"The past will catch you up as you go faster."
Será que vou dormir hoje?
Eu esgotei minha quota de sonhos
E sobraram os pesadelos,
Sessão especial, pay-per-view psicológico.
Essa moda geração saúde
Desconhece o horror das madrugadas.
Nunca bebeu cachaça na sarjeta
Ou andou os becos com viciados.
Nunca acordou na porta de casa
Ou fugiu da polícia sem ter motivos.
Nunca depredou
Nunca se drogou
Nunca enfrentou
Uma maldita crise de abstinência.
Se eu morresse diante do espelho
Veria a morte?
Se guardasse teus olhos mortos,
Teu vídeo de aniversário,
Tuas fotos da praia,
Veria a morte?
Se eu morresse dormindo
O que seria?
Sonho ou pesadelo?
Pesadelo... Esgotei minha quota de sonhos.
Dormi demais, mais de meio dia,
Sonhei todo o passado que'u queria
E acordei com o verdadeiro ao meu lado.
Enfurecido, só me olhava e repetia:
Sou eu! Sou eu o teu passado!
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Em um mar de incertezas,
Frágil barco é o homem à deriva.
Crente de que sua âncora
Toca o fundo, de que seu leme
Dirige-o, quando não.
Meu conhecimento é, tão somente
Um peso que levo de arrasto
Enquanto a razão crê piamente
Poder navegar entre dúvidas colossais.
A vida é por isso deveras traiçoeira,
Onde, a meu ver, é maior sorte
Jamais zarpar da segura ignorância.
Por RGM às 15:50
Muito bem, saindo do claustro. Do mesmo, o mesmo sempre, alguém mais letrado que eu já falou isso, só não consigo lembrar quem exatamente. Assunto para um outro dia, essa minha falta de memória, ou ao menos de um tipo de memória, aquela imediata que liga nome aos rostos - esqueço um nome segundos depois de o ter ouvido, sempre. Pior que nem fumo mais tanto, mas acho que a seqüela ficou. De qualquer forma, o que interessa é que resolvi escrever novamente após - dexa eu ver, aham - 20 dias desmotivados. Andei lendo bastante, mais que o normal, andei quieto, largando uma palavra que outra nos cadernos. Andei só, conversando mais com colegas, apenas o necessário, aquelas palavras de descontração na hora do café. Comecei a estudar bateria de novo e isso me deixou mais animado, incomodar os vizinhos de concreto com meus rudimentos aborrecidos e repetitivos; por que será que eu gosto? hehehe Então, seguem as palavras que restaram dos últimos dias.
Por RGM às 10:22
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Terça-feira, Março 30, 2004
Isso aqui anda meio parado. Não tenho tido tempo de encontrar coisas interessantes na net, apesar de ter lido muitos blogs ultimamente. O problema é q estagnei minha template, não coloco nem links agora. Está na hora de mudar... Mas enquanto isso:
Eu vou esquecer
Toda baboseira da razão,
Vou extirpar causas e métodos
Em louvor e versos.
Vou abrir a boca e te babar
De elogios esgaçados e abusados.
Vou te limpar dos meus defeitos,
Trejeitos e falsos complementos.
Eu te quero enrubescida, nua
Sob luz e espelhos, na cama,
Ofegante, repetindo: sou tua
E tu és só meu. Eu, todo teu...
Daí, mais nada, nenhuma fala
Das bocas que se encontram
e já se perdem, a mesma tara
Por um beijo molhado, malvado
Que escorrega as cegas e volta
Para mais outro, quase mordido.
Traído pelo teu último suspiro
Eu me viro, sempre o mesmo.
Desiludido, seguro-te contra o peito,
Tarde, foi-se o sentimento.
Jaz morto o meu desejo
E eu choro por dentro,
Co'essa alma forjada
De amores errados, fadados.
Corpos não sentem,
Acordam e partem,
Incompletos, magoados
Por uma esperança velada,
Nunca dita, só desejada.
Dane-se a razão,
A libido e a paixão,
Pois com certeza
A vida não é feita
Só de afago e compreensão.
Viver é ter destreza
Para enganar a solidão.
Por RGM às 12:45
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Sexta-feira, Março 26, 2004
Da depressão, da realidade, dos dois e de nenhum.
Nos meus ataques momentâneos de sanidade eu fico deprimido. Não consigo entender o fenômeno como uma simples disfunção química, alguma aberração "enzimática" capaz de me trazer os mortos; simplesmente não faz sentido algum daqui da sala de controle.
O meu dia comum não passa de um jogo, de um exercício de atenção e abstração, atento a qualquer coisa para me abstrair do ambiente, dos pensamentos que eu encontro nas esquinas. Ler é funcional, até perder o controle; calcular é eficiente, mas a inaptidão me cansa; trabalhos manuais são terapêuticos, porém me deixam muito espaço para funcionar. Eu improviso por observação, atenho-me aos detalhes de uma coisa qualquer e, absorto, driblo o que me importunava. Auxílio químico virou bônus por um trabalho bem feito; todos merecem o seu "soma", não é?
Entretanto, o que dizem depressão é aos meus olhos uma riqueza de sentidos, matizes, perspectivas de uma mesma paisagem. Não, eu não vivo no escuro o tempo todo ou tenho qualquer desejo mórbido recorrente, pelo contrário, as crises amplificam minha sensibilidade, ao que entendo como a visão mais próxima da realidade a que sou capaz. Mas a realidade é tudo o que outros já disseram, é vilã de uma história triste; é quando meus anestésicos perdem efeito que ela me alcança, por todos cinco sentidos, pela minha própria e irrevogável razão. Eu me sinto doente pela humanidade; canceroso por esse planeta radioativo; corrupto pelo o que homens e mulheres sentem em seu âmago. O "show" grotesco do nosso circo moderno exige atenção, arranca-me as pálpebras e me ensurdece quando me falam. Dos diálogos e conversas, de uma aula, de qualquer instante de atenção, a vilã me seqüestra, abusa e deprime, mas nunca me executa: sobrevivo exausto.
A contemplação é hipnótica; um valo ao longo da estrada, entre os que vão e os que vêm; é o limite entre o físico inexpressivo e a idéia que é pura expressão. Algumas vezes me deparo com a pergunta inevitável: não estarei me enganando? Não enganado, mas enredado em uma negação do que é uma possível realidade. Além de nos negarmos a compreende-la, uma vez tomados de assalto por essa amante dissimulada, pintamo-la como uma virgem cristã. Minha pergunta eu não respondo, mas continua como uma sombra de suas possíveis respostas, perseguindo meus pensamentos.
Não faço caso se tudo o que identifiquei provar-se falso; fosse das hipóteses, a pior: toda subjetividade e aguçada percepção iludidas consigo mesmas, imobilizadas pelos meus desejos e medos, refletindo tão somente minha própria imagem nos espelhos, nos atos puros naturais. Como o pôr-do-sol que nada é além disto, o sentimento pertence ao pôr-do-sol que eu possuo. Eu não tenho a pretensão de sequer esbarrar em algum novo paradigma filosófico, ainda luto com minhas picuinhas empíricas, erro em gênero, argumento e autor. Não intento determinar como é possível eu perceber e conhecer a realidade, mas apenas certificar que não me surpreenda observando o óbvio.
- A mente se arma contra a crueza do ser real com armadilhas que cabem à razão desarmar. Razão...
A mesma que me desafia. Um diálogo, um monólogo, talvez nem isso, um discurso fúnebre sem elogios. Os labirintos que eu encontro enquanto penso como sair de um maior, até que eu me canso e durmo olhando as paredes. Tal como foi ontem, talvez hoje, amanhã; talvez no dia em que não durma eu caia olhando as paredes, ou não. Quem se importa? Conquanto não sejam as mesmas de sempre terei dado um passeio de uma vida inteira; quem não gostaria? Danem-se também se não gostarem, é inevitável, querendo ou não, saímos de casa e só voltaremos à noite; procuro não me aborrecer. Eu quero um dia nas ruas, parques e cafés, passear como nos filmes fazem os casais, deliciando-me com lugares que ninguém nunca percebeu. Correndo pelos outonos a chutar as folhas, deitado entre as flores da primavera, aquecendo os leitos frios das noites de inverno, suando a dois nas manhãs de verão. Queria esquecer o que já pensei das paixões, dos amores, e me apaixonar dia após dia como se fosse a primeira vez. Queria não ser tão filha da puta - foi mal, mãe, força de expressão. Mas é verdade, são vícios de anos de análise, de uma sessão que não chegará ao fim. Eu lembro de um relacionamento que acabou errado, entre as pérolas de cordialidade e polidez uma não foi censurada: Porra, Xita (meu apelido), tu pensa demais meu. E é bem preciso, na época também concordei, apesar de ter pensado as coisas certas, eu as pensei demais. Se não tivesse hesitado tanto diante das saídas que encontrei, se...
Continuei o passeio e entendam-me bem, não é um filme, nem é como nos filmes. Gostaria que fosse, mas está mais para um pesadelo em um campo de trincheiras: enquanto explodem granadas e zunem projéteis, continuamos sem avançar ou recuar, pulando de buraco em buraco. Parar? Se parar alguém te explode e nem toma conhecimento; morre-se sem causa, sem algoz, sem nada. Então eu continuo, pulando e me enganando, pensando, errando e acertando, como todos que já o faziam, não sabiam e nem vão, só vão viver, só vão viver...
Por RGM às 23:57
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Segunda-feira, Março 22, 2004
Protect me from what I want
Protege moi
Perfeita essa versão em francês pelo próprio Placebo, tenho ouvido bastante. Não por ser em francês, na real, ouço as duas versões e muitas outras músicas. Mas sempre fico pensando: protect me from what I want. What was it anyway? Nunca sei... Alguém deveria saber por mim? Não sei. Nunca sei...
Cabem uns poemas?
Das minhas discussões.
E eu ainda insisto
Como fosse a vida
Uma discussão estúpida
Em que dois teimam até morrer.
-Nada a ver, nada a ver...
Disse o outro, só por dizer.
Viver é mais que estar vivo,
eu amei e odiei, eu lutei,
Ganhei e perdi, desisti
E empatei.
Mas dormi e acordei,
Sem saber por que,
Sonho após sonho e beliscão,
Era tudo ilusão.
Meu mundo é assim,
Um excesso de detalhes,
Alucinações por olhar demais
Os códigos invisíveis de um gesto,
Das frases quebradas, inacabadas.
Projeção
Aquela árvore não estava lá,
Trocaram-na de lugar.
Aquele banco, aquela sombra,
Quem lá estava, se pensava,
Até se nada, não há mais.
Quem te olhava, ao sair,
Não deixou nada, nem pesar.
E agora que podes te mudar
Não fazes nada, só faz chorar
Quem nunca esteve ou te traiu,
Sequer mentiu para iludir.
Não disse nada, quem te olhava,
Pensou a árvore e saiu.
Por RGM às 02:27
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Quinta-feira, Março 11, 2004
Aeee, huia! Pra quem me conhece, sabe que eu detesto coisas decididas e arrumadas na última hora, mas ás vezes não tem jeito. Então tou indo agora pro Uruguai passar meu último fim-de-semana das férias pescando! Não que eu não goste, pelo contrário, pra ir pro mato só preciso de um motivo: mulher, caçar ou pescar. É, eu tenho um lado bem instintivo, legal isso, né? Acho genial poder voltar às raízes e talz, exercer habilidades que ancestrais desenvolveram há milhares de anos e que têm caído em desuso (não me referia às mulheres hehehe). Foda é que vou ir pra PoA no domingo e nem arrumei nada ainda pra volta às aulas, tipo ajeitar o ap e afins (tenho pilhas de papéis dos semestres passados pra arquivar e colocar nome, ou não me acho o resto desse ano). Mas também não dá nada, quando voltar faço um esforcinho a mais e vivo uma semana em meio à bagunça e cheiro de lugar fechado - nada que umas horas de dedicação e um "bom-ar" não resolvam né? Ae, bom fim-de-semana pra todos.
Por RGM às 14:42
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Quarta-feira, Março 10, 2004
Se aconteceu comigo, já deve ter acontecido com quase todo mundo: entrar em uma loja ou qualquer outro lugar e dar de cara com uma antiga paixão. Mas uma paixão daquelas do tempo de escola, quando nada se falava, apenas sobravam suspiros e um olhar perdido por onde a pessoa acabara de passar, sem sequer notar nossa presença. Pois é, tive muitas dessas, mas algumas marcam, não sei bem porque. A garota era um ano mais velha, aquela coisa, eu no segundo ano e ela no terceiro; tinha amigas e amigos no terceiro, mas pôxa, sair com uma garota do terceiro não passava de sonho, virava pesadelo se caísse nas bocas erradas. Foram-se 5 anos, talvez 6, nem sei, entro em uma loja e quem me atende? Logo ela, não preciso dizer que ela me fez uma péssima venda, pois se suspeitasse poderia ter me vendido 10 vezes mais, no caso, um cel fone com visor colorido e câmera, talvez até desses modelos palm-top com cel; é sou extremamente sugestionável nesse ponto. Prefiro comprar tudo com vendedores homens, pois daí não corro o risco de gastar demais ou comprar o que não queria, mas me coloca na frente de uma morena daquelas e compro até túmulo na Lua.
De qualquer forma, foi legal. Não acho que vai passar disso, talvez eu volte na loja, mas é mais certo que não. Faz parte do momentos especiais que não devem ser testados, devem permanecer como nos lembramos deles. Ao menos me dá o que escrever, umas linhas aqui, outras ali, quem sabe uma personagem especial que entra pra salvar o livro no penúltimo capítulo. Acho que a própria vida tem seu enredo assim, por falar nisso: alguém sabe de uma heroína de plantão?
Por RGM às 13:08
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Terça-feira, Março 09, 2004
Where's my mind? Placebo, Pixies cover, em Clube da Luta, memorável cena dos prédios explodindo bem no finalzinho do filme.
Bem sei que a música tá pra lá de batida, mas é ótima. Tinah que postar, afinal gravei um cd só por causa dessa música, trilha sonora dos últimos dias febris que tenho vivido.
With your feet in the air and your head on the ground
Try this trick and spin it, yeah
Your head will collapse
If there's nothing in it
And you'll ask yourself:
"Where is my mind?
Where is my mind?
Where is my mind?"
Way out in the water, see it swimming.
I was swimming in the Carribean
Animals were hiding behind the rock
Except for little fish
When they told me east is west, trying to talk to me, coy koi
Where is my mind?
Where is my mind?
Where is my mind?
Way out in the water, see it swimming
Por RGM às 21:42
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Domingo, Março 07, 2004
There's not much at this time, not at all. "Sexo verbal não faz meu estilo." Meu estilo é outro, é silencioso. O jeito como eu vivo, se muito isso, é quieto, olhando qualquer coisa; na opinião dos outros, não há coisas qualquer na minha. Detenho-me absorto pelos detalhes, por quase todos eles, mas sei que já disse isso antes, é irrelevante. As pessoas não estão habituadas a me ver, parado, olhando um recorte de uma revista em quadrinhos; reclinado sobre uma carreira de formigas; sentado, sem piscar, catatônico. Não é que não aprecie as companhias, pelo contrário, sinto-me mais humano quando estou entre amigos e amigas; porém, meus dias são solitários, são exercícios instrospectivos - eu treino não sei pra que. É claro que essa é uma pergunta quase estúpida, não fosse a sua ironia. Afinal, bem sei as probabilidades de iniciar um relacionamento que funcione, logo, é louvável que esteja pronto pra continuar como estou agora e encontre tão somente em mim as razões necessárias para não cessar de existir; não falo apenas de morte física, há maneiras muito piores de cessar sua existência.
Relacionamentos não são meu assunto favorito, eles incluem no mínimo uma segunda pessoa, da qual eu nada sei ou posso afirmar. Eles necessitam de compreensão, paciência, dedicação, cumplicidade; quesitos todos em que me considero mais do que capaz, entendam-me bem: minha própria humildade exige-me que reconheça, sou plenamente capaz de sentimentos maduros e conscientes, de sustentar qualquer relação saudável. Meus problemas estão além das picuinhas diárias, além do meu próprio diagnóstico - até uma criança me apontaria o meu erro. Mas eu, amarrado à primeira pessoa, o observador diante do espelho, identifico o mundo invertido. O que eu vejo? Eu me apaixono todo dia, por uma imagem transeunte, por um manequim tal como eu, programado para desaparecer na multidão das ruas. Eu me apaixono, mas nunca amo, nunca ultrapasso a estreita linha que separa homens de bestas; atenho-me com afinco em filosofias e reflexões, mas sou incapaz da reação mais humana de todas. Coisa horrível de se dizer: eu perco o interesse assim que amanhece o dia. Eu satisfaço minha necessidade de afeto, de carinho, de prazer, empenho-me em fazer o mesmo (com sucesso, na maioria das vezes) mas a paixão simplesmente se esvai, sobram seres humanos sem brilho, esgotados sob lençóis de chumbo.
Gosto da minha rotina, apesar de odiar viver rotineiramente; eu gosto de como acordo, ainda sonhando; gosto de acender o cigarro e observar o sol, agarrado a uma caneca de café preto bem forte. A maneira como revigoro depois do banho; a resposta rítmica do passo sobre a calçada, do meu próprio pulso, enquanto ultrapasso ruas e avenidas. Gosto de encontrar um olhar qualquer nos meus caminhos, ou quando deixo que os outros caminhem sozinhos; gosto de sentar em bancos e ver as pessoas, de imaginar suas vidas. É claro que não sou um voyeur ou um psicopata, pelo contrário, minha curiosidade é saudável; quando olho é à procura de respostas, é atrás de ajuda que meus passos aceleram.
Queria entender como começou a idéia de alma-gêmea, além de todas fábulas e mitos; queria saber como fui levado um dia a acreditar e esperar, à procurar. É verdade que sempre fui dado à fantasia, sempre dediquei-me a amores platônicos, a idealizar tudo que desejava - um fracasso, é claro. Mas ao mesmo tempo aprendi a não ser exigente com os outros, aprendi a reconhecer as pessoas pelo o que carregam em seu âmago. Talvez outro erro, pois abomino as almas menores, tenho aversão à pessoas vazias, mas quem não tem? Que grande decepção é descobrir os defeitos alheios, não os que todos vêem, mas aqueles que nós mesmos não sabemos. É depressivo despir os manequins de suas roupas, descobri-los apenas plástico sob os enfeites e falso brilho. Já me perguntaram por que não "chego" em garota alguma nas festas e a melhor resposta que encontrei é que não preciso, de onde estou já me decepciono o suficiente. Tá, há quem me diga que os defeitos fazem parte do encanto assim como da própria pessoa, e é verdade, mas não vejo encanto algum além de sedução. Sex appeal, sensualidade, à nada disso estou imune, sou tão homem quanto meus hormônios exigem, mas entre me masturbar sobre alguém que apenas desejo e masturbar-me a sós, unicamente por necessidade fisiológica, prefiro cuidar do problema sozinho mesmo. Sei que o problema é muito mais meu do que de qualquer uma das garotas com quem saí (e isso vai dar o que falar), mas se analiso os detalhes é óbvia a complexidade das causas e efeitos; talvez eu devesse nascer de novo e ser criado como um desses produtos de larga escala, modelo padrão. Infelizmente cresci assim, crítico demais para uma sociedade que não aceita críticas, desleixado demais para uma sociedade que só valoriza a imagem. "The crumbs of love that you offered me, they're the crumbs I left behind." Como última réplica à minha situação resta a idéia, o conceito do que seja amor, pois certamente a grande maioria humana não possui condições de compreender o que seja; dizem sentir, mas não sabem. Eu mesmo não saberia, se não por metáforas, por conceitos paralelos tão dúbios como o primeiro. De qualquer forma, tão poucas vezes senti essa necessidade de devoção, esse afeto incondicional e incontrolável, que poderia amar e não saber que o faço. Todavia, sendo a única coisa irracional e inexplicável que eu possa sentir, o amor é deveras inconfundível; confundi-lo seria pretender que taquicardia e outros sintomas de ansiedade não possuam causa.
Do que me serve essa extensa discussão sem metas eu não sei, pois não consigo identificar meu problema, não sei por que não chego a amar e ultimamente me apaixono menos ainda. Pretendia descobrir, mas não é de agora que me interrogo à respeito, aliás, faço-o desde que suspeitei amar qualquer coisa e percebi que não amava. Minha vida não mudará por esse fracasso, somente se fosse um sucesso, porém, como descobri que o amor tem outras faces, tenho muito mais amor por mim mesmo e dedicação a ser o melhor que posso do que poderia tempos atrás, em resumo, não sei se mudaria minha condição se pudesse, mas daí é apenas suposição.
Por RGM às 23:15
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Segunda-feira, Março 01, 2004
Tenho escrito pouco, quase nada. Nem aqui nem em papel higiênico eu largo palavras. Sanitarium? No more diary for this madman this days. Fui acampar; lugar paradisíaco, desses bons pra ficar sentado, olhando o nada entre eu mesmo e as coisas naturais. Riozinho, bem longe do mar de pessoas em ritmo carnavalesco, bêbadas e barulhentas. Isso sim é aterrorizante, o barulho que as pessoas fazem, tão alto que não consigo ouvir meus pensamentos. Pra festejar carnaval o cara tem que esquecer quem é se deixar levar pela onda, pela tsunami de imbecilidades que as multidões cometem. Após, outra semana, outro fim-de-semana, sentado na beira da praia, medindo o nada entre eu e o caniço que balança no vento. Acho que de tudo, tudo o mesmo, o nada, entre o que está aqui e o que esta ali; passo a vida procurando coisas no nada das próprias coisas, e ainda tenho coragem de chamar os outros de imbecis... Bem, quem toma remédios, quem passa a maior parte do tempo sozinho pensando se o "i" tem bolinha ou pinguinho, quem vai dormir e puxa outro travesseiro do armário porque a cama é grande demais, deve estar no mínimo na contra-mão. Não enxergo erro, afinal esse relativismo sucks, a maioria não está necessariamente certa, nunca, mas que é brabo é. E pra cair por uns segundos na real, tenho mais o que fazer agora: coisas práticas, daquelas que nos fazem esquecer de tudo e focalizar um objetivo, coisas práticas com o poder de entalar por instantes uma pedra no buraco negro que suga meus pensamentos para longe da realidade. Melhor começar logo antes que a pedra entre...
Por RGM às 13:33
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Sexta-feira, Fevereiro 13, 2004
Como já há muito dizem os magros da prainha: Então, só eras, depois do Sol baixar, ih pra praia, pegá um mar. À isso e um pouco mais se resumem meus últimos dias. Desculpem-me aqueles impossibilitados, mas a oportunidade apareceu e eu entrei de peixinho; contatos só por celular, tou morando na praia. Afora algumas incursões às entranhas do cinza urbano, abafadas e quentes, resisto ao vento e às páginas que voam e viram sozinhas, sentado, de frente pro mar. Eu olho, sempre digo: com esmero; observo a vida em seus detalhes. De pessoas, transeuntes, belas moças, a gaivotas, bufadas de areia e ondas quebrando. "Cenáriozinho" de filme surf, coisa que eu detesto; a contemplação da vida, da natureza, serve apenas se e como objeto de reflexão, introspecção e exteriorização do ambiente para a idéia e novamente expressa no ambiente, como produção, contribuição do ser humano à mãe natureza. Então, pra quem não entendeu, detesto esse "pessoalzim da moda", "caranga da hora", "ropinha mais cara"; claro que não é por possuir as coisas, mas é justamente por possuí-las sem consciência. É o cara que, sem absoluto senso crítico (estúpido mesmo) coloca a todo volume mais uma dessas merdas industriais; é o mesmo que joga lixo no chão, plástico (500 anos, as sacolinhas, nem penso em embalagens...), papel, latinha pela janela do carro; quando muito vejo alguém que não joga nada na praia, mas ao subir no asfalto vira homem novamente, e joga lixo. Talvez seja pelo tipo de lugar onde me encontro, uma praia cheia de pessoas ociosas, mostrando o que sabem fazer - ou conseguem - desse tempo - desperdiçado. Tomando as minhas dificuldades em aproveitar o tempo ocioso, imagino os esforços da maioria - e acho q ainda sou generoso - de todos que não dedicaram tempo suficiente à música para entender a diferença entre bom e ruim; dos muitos e muitos que abriram livros no segundo grau, outros em trabalhos xerox da faculdade, e nunca aprenderam a ler; todos que sentaram durante a vida inteira e nunca conseguiram entender o que viam, pois não entendiam a si mesmos, não conseguiam refletir para si a realidade. Senta a um desses garotos de hoje e coloca-o a pensar sobre o que vê, sobre o que é a realidade ao seu redor, a realidade das relações que ele estabelece com as outras pessoas, animais, seres; quão decepcionante será a tua resposta... Mas, deixe assim, não é? Tenho meus fones de ouvido, bicicleta, quilômetros de praia para pedalar, linhas e linhas dos livros para percorrer. Companhia não me ia mal, mas sei que me fiz estar só, não solitário, apenas só; com meus pensamentos, com a paisagem enchendo-me os olhos com cores e lágrimas, com o vento levando minhas cordas de fantoche, a sós com o mundo inteiro eu me fiz estar e ainda não me arrependi.
Por RGM às 13:10
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Domingo, Janeiro 25, 2004
Outra obra de arte deste mestre, não tem o que dizer.
Por RGM às 18:21
Luiz Royo: um dos artistas mais talentosos que já encontrei na web. O endereço está no perfil, em "From World Wide Web". No site dele as imagens são apenas amostras dos livros que (capaz que não neh...) estão à venda, mas em "Artists Links" pode-se encontrá-las neste tamanho aqui postado.
Por RGM às 17:13
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Sábado, Janeiro 24, 2004
"O gládio de um relâmpago frouxo volteou sombriamente no quarto largo. E o som a vir, suspenso um hausto amplo, retumbou, emigrando profundo. O som da chuva chorou alto, como carpideiras no intervalo das falas. Os pequenos sons destacaram-se cá dentro, inquietos."
Fernando Pessoa
Por RGM às 16:37
Citando Secos e Molhado:
"Eu solto o ar
no fim do dia
perdi a vida
Eu já não sei se sei
de nada ou quase nada
eu só sei de mim
só sei de mim
só sei de mim"
Por RGM às 16:28
"Would you care loving anyone?"
Foi essa, mais algumas, dessas frases que se ouve em um filme e ficam ecoando na memória. O filme acabou, eu ia dormir, but found my way up stairs and it was waiting for me. A frase, mais algumas... "...don't you think we should be closer?" Floyd é assim, me pega no meio do caminho, no meio do pensamento. E nem era essa uma daquelas, é apenas mais uma das muitas que carrego, sem pesar, sem ocupar espaço. A trilha sonora que compilamos para a vida não precisa de play e não aceita stop.
"When you're one of the few to land on your feet, what do you do to make ends meet? Teach. Make them mad, make them sad, make them add two and two. Make them me, make them you, make them do what you want them to. Make them laugh, make them cry, make them lie down and die."
Eu queria um poema de amor, pronto e triste. Queria as respostas, as perguntas e algo para lamentar. Tantos "queria" que já não sei se quero, pois quando percebo o que não tinha, penso que queria. O poema é de tudo o pouco que eu entendo menos o tanto que nunca digo. Não que eu não pense, quem pode controlar o que pensa? Desviar a atenção é a mesma mentira de sempre, acaba assim que o olhar repousa em qualquer coisa, no espaço vazio entre as coisas e nós mesmos.
Do que eu vim para escrever já não restou quase mais nada. Um cigarro apagado no canto da boca, entreaberta para não colar aos lábios.
Não é muito o que me permito gostar nos dias presentes, a vida é a mesma para a reflexão que não cessa, que corre e quase me escapa, que eu expiro e quase sufoco. Assim foi que há muito não conto minhas horas à sós, eu respiro os pensamentos tímidos e eles pedem por mais. Carregam-me em silêncio por tão longas distâncias que estranho o som da minha voz; eu canto. Sempre acabo divagando comigo mesmo, pulando de uma idéia para outra, fugindo de perguntas certas que apenas eu poderia me interrogar. Se eu me importo de amar qualquer pessoa? Sem fugir, sem perguntar em qual sentido, respondo rápido para não me enganar. Sim. Hoje falei essa palavra mais do que em algumas semanas reunidas. Repeti mais do que tenho direito, visto que meus conselhos, à quem os tenha recebido, não aceite. Sem muito esforço, reconheço minha falsa experiência, meus dias inúteis e palavras escolhidas. Versos que sequer esperança podem conter, senão a mesma de ver um dragão rasgar o céu em chamas. Respondi? Creio que não, mas agora durmo sem virar para o lado errado, sem fechar os olhos para ver o que não existe. Agora durmo e frase alguma me despertará a alma em chamas.
Por RGM às 04:19
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Terça-feira, Janeiro 20, 2004
Infelizmente, neste primeiro dia de casa nova, não tenho nada especial pra postar. Que coisa não? Nenhuma discussão de cunho social, nenhum problema da episteme (conhecimento) ou consideração metafísica que o valha. De forma alguma estou sem idéias, agora mesmo muitas pularam gritando: me escreva! Porém, se me permitem a clareza e objetividade, envolvi-me tanto com a template que não estou com saco pra isso! É disse isso mesmo, sem paciência nenhuma, não só com isso; se quiseres dizer que estou nos dias, até não seria desapropriado. Há pouco olhei uma pessoa e senti uma compulsão absurda de enfiar um soco bem dado, único problema é que nem conheço a criatura, só cruzei com ela em um corredor qualquer. Não tomo bomba, nem cheirei ou coisa parecida, é só mau humor mesmo. Então, passar bem.
Por RGM às 18:40
Primeiro post do novo endereço. Ainda não sei o que vou fazer dos textos, que não são muitos, publicados no adress antigo, mas vá lá. Melhor começar tudo di novo... Provavelmente em algumas semanas vai mudar tudo novamente, estou editando uma nova template, mas dinâmica e, assim espero, mais leve.
Por RGM às 17:58
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